terça-feira, 23 de agosto de 2011

5º Encontro H² Sustentável - Vale Encantado

Galera, está complicado atualizar o blog daqui do Pará, mas prometo mais assiduidade. Enquanto não reestabeleço uma rotina de posts, coloco aqui o relato do Saulo sobre o o quinto encontro do H² Sustentável, que aconteceu no dia 12/08 no Vale Encantado, no Alto da Boavista.


Apesar dos belos quitutes e de uma comida deliciosa, o 5º Encontro H² Sustentável, do dia 13 de agosto, na comunidade do Vale Encantado, não foi apenas um dia de gula. Os participantes tiveram a oportunidade de conhecer um empreendimento que valoriza o turismo sustentável e o desenvolvimento regional e da gastronomia local: a Cooperativa Vale Encantado. Além disso, o grupo debateu novas possibilidades e idéias para a gestão do projeto. 

Localizado no bairro do Alto da Boa Vista, no Rio, em meio à Floresta da Tijuca, a cooperativa impacta 25 famílias, com o objetivo, através do ecoturismo e do manejo sustentado da floresta, oportunidades de capacitação, trabalho e geração de renda para os moradores. O presidente da entidade, Otávio Barros, explicou a história da comunidade, o desenvolvimento econômico, a especulação imobiliária, as principais demandas locais e, claro, o trabalho da cooperativa.



É importante destacar o contexto histórico da região, pois a primeira manifestação de ocupação do Alto da Boa Vista foi no século XVIII, quando os jesuítas, arrendatários dos terrenos do Alto, foram expulsos do Brasil por Marques de Pombal e as terras sendo vendidas posteriormente. De lá pra cá, a região passou da fase de desmatamento para exploração agrícola – ciclo do café, por exemplo -  até, numa medida de reflorestamento, por D. Pedro II, recuperar a sua mata nativa. A partir do século XX, dois impactos econômicos atingiram a comunidade do Vale: o mercado da floricultura e a construção de uma pedreira. Em uma corrida por empregos, a população aumentou e com isso surgiu a carência por saneamento básico, transportes, educação etc.

Com a mata nativa recuperada, a região ficou propícia para o cultivo de flores, e essa foi a principal fonte de renda das famílias nas décadas de 40/50. A região virou um grande fornecedor do mercado da floricultura, mas começou a sofrer forte concorrência de cidades da Região Serrana, do Estado do Rio, que possuíam uma logística mais fácil para escoar a mercadoria. Com o enfraquecimento, a floricultura foi deixando de ser a atividade principal do Vale Encantado, na década de 70, e dando lugar à outra com o passar do tempo.

Depois de alguns anos do início do ciclo da floricultura, o segundo boom econômico ocorreu com a instalação de uma pedreira para a exploração de granito preto. Mais uma vez a oferta de empregos atraiu um grande número de novos moradores, mas os problemas estruturais persistiam. Com explosões para a extração, a atividade começou a ocasionar graves problemas, deixando a terra sem cobertura vegetal e prejudicando nascentes. Nessa época, o Alto da Boa Vista já era um patrimônio histórico nacional. Nos anos 90, a pedreira foi desativada.

“A cada fim das atividades econômicas, a comunidade sofria uma retirada de famílias, que precisavam procurar novos empregos e deixavam a região. Depois do fim da pedreira, a população diminuiu muito. A falta de infraestrutura afastou daqui muitas famílias. O caminhão do lixo não vinha aqui. E até o fim dos anos 90, não existia um medidor de luz em cada casa. Com esses problemas, eu mesmo precisei deixar o Vale Encantado para encontrar um trabalho até poder voltar e montar a cooperativa”, diz Otávio.

Passadas as fases que não deixaram nenhum legado, o surgimento da cooperativa coincidiu com reestruturação da Associação de Moradores e Amigos da Taquara do Alto da Boa Vista – AMATA, com o objetivo de organizar a comunidade para solucionar os problemas  de infraestrutura, bem como o fortalecimento com o poder público para a regularização dos terrenos dos moradores. Como é um ponto turístico, a especulação imobiliária é elevada. Após esse envolvimento com as famílias, através de uma indicação, Otávio conheceu a Abaquar, em 2005, entidade francesa que apóia investimentos em comunidades.

“Depois de entrar em contato com o vice-presidente da Abaquar, o Jérome Auriac. um colega e eu fomos treinados como guia turístico. A ideia era o turista fazer um passeio pelas trilhas e, no final, consumir a gastronomia local. No decorrer do curso, a Abaquar trouxe turistas, e esse movimento foi crescendo a visibilidade da cooperativa. No início, a comida era feita na casa das pessoas e o consumo em um bar improvisado, porque ainda não tínhamos uma sede. Em 2008, a cooperativa foi criada e, finalmente, no ano passado, conquistamos um local próprio, para atender o turista e grupos com conforto”, explica.

Atualmente, a comunidade do Vale Encantado conta com uma equipe de 20 cooperados que operam como guias nas trilhas ecológicas e no funcionamento  do restaurante. Com a parceria firmada com o Instituto Ventura, a cooperativa conseguiu apoio financeiro para capacitar moradores da comunidade, investir em infraestrutura da sede e potencializar a vocação da gastronomia local.

“Com esse investimento, além de melhorar as instalações, viabilizamos a qualificação técnica de garçons e cozinheiros para os moradores, como os cursos do Senac. Isso é uma forma de sensibilizar as famílias para o empreendimento. Além receber o público no nosso espaço, apostamos também no Buffet Social, a nossa forma de atender eventos externos e disponibilizar a gastronomia local para outros lugares”, friza Otávio.

De fato, a culinária da Cooperativa Vale Encantado é uma atração à parte. São receitas de antepassados das famílias, com o objetivo de melhor aproveitar os produtos orgânicos cultivados nos quintais das casas e outros que crescem naturalmente na Floresta da Tijuca. Com estes ingredientes naturais elaboram iguarias como: pastel de taioba, geléia de chuchu com pimenta, jacalhau, empadinha de jaca e coração de banana, entre outras, além de sucos exóticos como de chuchu com hortelã e maracujá com couve.


Antes de partir para a degustação, o grupo do H² Sustentável contribuiu bastante e deixou vários insights para a gestão da cooperativa, tais como: implementar a coleta seletiva para ser mais uma fonte de renda através de artesanato; incentivar os eventos corporativos no Vale Encantado; e buscar em universidades consultoria para todas as áreas que a cooperativa atua: turismo, treinamento, agricultura, alimentação, a própria gestão do negócio, assim, envolvendo centros de pesquisas que necessitam de campo para aplicar estudos de ponta. Além disso, o encontro também serviu para sugerir a modificação da pessoa jurídica, pois a modalidade cooperativa não participa de certos aportes financeiros, como o programa Prime - Primeira Empresa Inovadora, da FINEP - Financiadora de Estudos e Projetos, do Governo Federal.

O grupo do 5º Encontro H² Sustentável foi formado por: Eloá Marques, Ida Spritzer, Igor Souza, Joanna Alimonda, Julianna Antunes, Maria Emília, Otávio Barros e Saulo Machado. Após a parada para o almoço, o encontro teve o tradicional quiz de sustentabilidade, desta vez, com perguntas e respostas focadas para o empreendimento do Vale Encantado.

1 comentários:

Cooperativa Vale Encantado disse...

As reuniões em que participei do H2 Sustentável, tem me trazido uma experiência excepcional, além de conhecer pessoas novas que realmente se importam com o nosso planeta, elas tem uma forma diferente de pensar, agir e contribuir. Otávio Barros