segunda-feira, 26 de março de 2018

O tempo perdido da sustentabilidade

Ok, não vou negar que muita coisa foi feita e que, sim, houve muita evolução nos últimos dez, quinze anos no quesito sustentabilidade corporativa. Mas também não vou negar que o resultado é infinitamente aquém da expectativa que se tinha a partir do que vinha sendo discutido e proposto nos anos 90 para os 10, 15, 20 anos seguintes.

Não estou falando do esvaziamento da área ocasionado pela crise mundial que assolou o mundo em 2008 ou a crise interna implacável que nos corrói desde 2014. Falo das expectativas criadas para a década de 2000 e que simplesmente não se concretizaram. Não se concretizaram em muito por conta da ilusão do dinheiro fácil criada por bancos de investimento que fizeram roleta russa com alguns dos principais mercados econômicos do mundo e pela falta de vontade das empresas do século XX em mudar a chave do modelo mental para adentrar o novo século.

Mas façamos uma análise crítica da sustentabilidade dentro das empresas nos últimos 15 anos. Não vou negar que tivemos relativa eficiência operacional que gerou relativa redução de consumo de recursos naturais. Digo relativa, pois, como expliquei no artigo sobre o mito da economia circular, melhoramos muito se analisarmos o consumo por unidade de produção. Mas em termos de consumo total, continuamos a tragédia de sempre.

Também não vou negar que tivemos grandes avanços sociais por parte das empresas, mas é inadmissível que em pleno século XXI ainda tenhamos de nos deparar com grandes empresas globais dizendo que a culpa pelo trabalho infantil ou análogo ao escravo é do fornecedor e não delas. E ao contrário do que poderíamos imaginar, esse tipo de escândalo só cresce ao invés de diminuir.

Não vou negar também que o público médio passou a ter muito mais conhecimento de sustentabilidade e que isso é muito bom. Mas também é um perigo, já que as empresas se deram conta de que comunicar a sustentabilidade é bom e muitas vezes se focaram só nisso.

A verdade é que nunca antes na história deste planeta tivemos tanta preocupação com comunicação da sustentabilidade e com os relatórios de sustentabilidade. Muita preocupação. Aliás, nunca se viu um engajamento tão forte como o comprometimento das empresas em ter um relatório para chamar de seu. Mesmo que não tivesse nada interessante para ser reportado.

Pois bem, peguemos os relatórios. Uma vez, num desses eventos me engana que eu gosto sobre relatórios de sustentabilidade, há uns quatro anos, mais ou menos, questionei sobre quando as empresas seriam cobradas por indicadores de sustentabilidade atrelados ao negócio. Tipo, o que significa para uma empresa dizer que consumiu não sei quantos metros cúbicos de água em um ano? 

O quanto aquele recurso natural é crítico para a sua produção e o quanto a escassez de água impacta esse negócio? Qual o histórico de eficiência da empresa neste indicador, sei lá, nos últimos cinco anos? Sabe a resposta que tive de gente ligada à GRI? Esse tipo de análise deveria partir das empresas. Sério isso, GRI? Sério que você é leniente a esse ponto? Qual o seu propósito? Quantidade de relatórios?

Vamos analisar aqui bem criticamente: há quanto tempo existe a GRI? Resposta: 20 anos. Convenhamos que se em 20 anos as empresas não tomaram a iniciativa de reportarem indicadores de sustentabilidade atrelados aos negócios, enquanto não forem cobradas, vai tudo continuar do jeito que está. Não esqueçamos a lindeza que é o relatório da Vale até hoje ou mesmo o que foi o relatório da Samarco em 2014. São as empresas fingindo que fazem, a GRI fingindo que avaliza e a galera fingindo que lê. Ficção pura.

Voltemos ao boom de comunicação da sustentabilidade. Ok, faz parte do processo de amadurecimento ter esse momento. Mas pergunto a vocês: das principais empresas brasileiras ou que atuam no Brasil, quantas delegam, hoje, a sustentabilidade à área de comunicação ou assuntos corporativos?  Posso fazer uma lista praticamente infinita. 

Mas analisemos bem criticamente de novo: qual o propósito da área de comunicação das empresas? Para não me equivocar, busquei na internet várias definições para o setor e para resumir as que encontrei, digo que o objetivo da comunicação corporativa é cuidar da reputação da empresa de forma a obter apoio e influenciar a opinião e comportamento junto às partes interessadas. Ou seja, reputação e imagem junto aos stakeholders.

Absolutamente nada contra esse propósito de comunicação. Mas estou falando de sustentabilidade. E aí pergunto: qual o papel da sustentabilidade quando ela responde para a área de comunicação? Reputação e imagem. Justo. A sustentabilidade também está nessa. Também. E isso é a ponta final de um longo processo.

Antes de chegar no reporte, na reputação, na imagem, tem de fazer. E pra fazer, a sustentabilidade tem de passar pelo planejamento estratégico, pela engenharia, pelas finanças, pela inteligência competitiva, por novos mercados, pela inovação, por novas fontes de receita, por redução de custo e risco etc etc etc. E depois, só depois de a sustentabilidade percorrer todo esse caminho e ser efetivamente aplicada nesse bololô, é que a gente pode pensar no retorno que ela traz de reputação e imagem.

Há anos fala-se das externalidades da sustentabilidade. Repito aqui a minha crítica sobre relatórios de sustentabilidade: o que significa em termos de negócio e em termos de risco, por exemplo, uma Unilever da vida dizer que gasta x litros de água por ano em seus processos produtivos (sabendo que a água é um bem escasso e que não se paga pelo seu consumo)?

O que significa para uma mineradora reportar a supressão vegetal de x km² para botar em operação uma unidade produtiva (e com isso dizimar fauna e flora de uma região)? Alguém tem essa resposta hoje? Porque isso já se discute há mais de 20 anos e a discussão não sai do lugar!

Tentou-se na década passada estabelecer um mercado de crédito de carbono. Não deu certo. Mas acreditem em mim, vão ter de fazer dar certo. Se a produção industrial continuar como ela é hoje, dados da OECD apontam que a temperatura aumentará mais de quatro graus em 2050. Logo ali. A maioria que me lê vai estar viva nessa época. 

Vale lembrar que o Acordo de Paris de 2015 é para fazer com que a temperatura não aumente mais que 2 graus em 2100. Ou seja, aumentando pouco, aumentando muito, o fato é que o planeta já está mais quentinho e ninguém sabe, de fato, o que isso significa em termos sociais, ambientais, econômicos e muito menos empresariais.

A questão é que por mais que na teoria a sustentabilidade corporativa seja linda, que o discurso das empresas e das instituições sejam inspiradores, ela não passará de eterna promessa enquanto não se mudar o modelo mental das pessoas, o modelo mental das empresas e o modelo mental das sociedades. 

Não, o que a maioria das empresas (dizem que) fazem está longe de ser sustentabilidade. Pode ser relacionamento institucional, compensação ambiental, governança corporativa, legitimação social, marketing de causa/social/sustentável, licença para operar... nada mais que uma reação às demandas de empresas com modelo mental do século XX. Mas já passou da hora de virar a chave para o novo século. 2020 é amanhã de manhã.

P.S. Galera, no dia 14/04 em São Paulo, estarei conduzindo um workshop sobre mapeamento e gestão de stakeholders. Ele é bem legal e cheio de atividades práticas. Mais informações sobre conteúdo e inscrições: para contato@sustentai.com ou acessando o link: https://goo.gl/ueup7s. E quem estiver inscrito na palestra, terá desconto especial!


Julianna Antunes é consultora de sustentabilidade, palestrante, professora universitária e finalista de vários prêmios e concursos de sustentabilidade, tendo sido vencedora do Smart Living Challenge, cujo projeto foi apresentado na COP-21, em Paris. Faz mestrado em engenharia de produção na COPPE/UFRJ, com pesquisa voltada para inovação em modelos de negócio para o setor de petróleo e gás. É também criadora do Sustentaí, um projeto de democratização do conhecimento da sustentabilidade.

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