E se não existisse a área de sustentabilidade nas empresas?

Já pensou em como seria se a sustentabilidade fosse responsabilidade de cada área dentro da empresa?

A importância da área de RH para a sustentabilidade e vice-versa

Como as áreas podem atuar de forma intergrada e a importância de ambas para a geração de valor para a empresa

Por que o business as usual não funciona para a sustentabilidade?

Porque fazer simplesmente o que sempre foi feito não é suficiente para a sustentabildiade

segunda-feira, 8 de abril de 2019

E se não existisse a área de sustentabilidade nas empresas?

Vocês já pararam para pensar como seria se as empresas não tivessem a área de sustentabilidade? Não estou ironizando as empresas que chamam meio ambiente de sustentabilidade, ou reúne meia dúzia de projetinhos sociais e fala que isso é sustentabilidade. Faço a pergunta de forma séria mesmo. E se a área como ela deve ser hoje simplesmente não existisse, como seria?

Quem me conhece sabe que há pelo menos 12 anos, quando comecei a trabalhar especificamente no setor, falo sobre o fim dela. Sim, meus caros, há 12 anos trabalho pelo fim do meu emprego e infelizmente digo que ele está longe de acabar. O que é uma pena. Mas antes de vocês acharem que eu enlouqueci, deixe-me explicar.

Conforme escrevi no longínquo ano de 2016, a sustentabilidade corporativa tem múltiplas facetas. Logo depois de sair da fase responsabilidade social, abracei a causa da sustentabilidade atrelada aos processos. Apesar de hoje lidar com coisas relativamente mais complexas, não tem como eu deixar esse legado para trás. Afinal, o básico do básico do básico da sustentabilidade nas empresas está totalmente ligado a processos.

Mas Julianna, o que isso tem a ver com existir ou não existir a área de sustentabilidade dentro de uma empresa?

Tudo, meus caros. T-U-D-O.

Vamos pensar aqui: uma empresa cria a área e ela tem o seu gestor, seus analistas, o estagiário... Afinal, todo mundo é filho de Deus e tem direito a um estagiário. Se a sustentabilidade trabalha atrelada aos processos, ela vai atuar super integrada aos demais setores da empresa, seja nas áreas de negócio, seja, principalmente, nas áreas operacionais. Como falei num dos textos mais legais e mais acessados que escrevi aqui, a sustentabilidade acontece de verdade na operação da empresa e não com a bunda sentada na cadeira em frente a um computador.

E aí que a verdadeira missão das pessoas que trabalham com sustentabilidade nas empresas é, justamente, fazer com que as outras áreas sejam sustentáveis. Ela não é e nem pode ser isolada. Sim, falo isso há séculos, mas nunca vou me cansar de repetir: não tem o menor sentido uma empresa achar que é sustentável apenas porque criou uma área de sustentabilidade em seu organograma.

Dito isto, salto para a questão mais filosofal e o ápice dessa minha reflexão. No mundo ideal, partindo do princípio que a sustentabilidade está tinindo dentro dos processos e os colaboradores estão engajados, assim como os stakeholders, posso assumir que o conceito é maduro o suficiente dentro de uma empresa. E aí eu provoco vocês: se a empresa tem a sustentabilidade em um nível world class, por que ela precisa de uma área específica para isso? Não é responsabilidade de cada processo, de cada setor, de cada área, fazer a sua parte?

Ain, Julianna, quem vai fazer o relatório? A área de comunicação, ué! Quem vai fazer diálogos com stakeholders? A área de assuntos corporativos, oras! Quem vai fazer o engajamento? Sabe a galera de comunicação? Entonces, ela de novo... Quem vai tocar os projetos de meio ambiente? As operações, carambola! E as ações com os fornecedores? Meu Deus, a área de suprimentos! E a área de logística, e a área de marketing, e a área de trade, e a área de finanças, e a área de RH... e qualquer área vai ter a sua cota de responsabilidade com a sustentabilidade.

Utopia? Não, não mesmo. Como disse antes, é uma agenda que tenho há 12 anos. O problema é que há, pelo menos, 12 anos, as empresas não se dispõem a amadurecer a sustentabilidade e ficam gastando rios de dinheiro em atividades e rotinas pouco efetivas.


segunda-feira, 1 de abril de 2019

A importância da área de RH para a sustentabilidade e vice-versa

Sustentabilidade corporativa para ser sustentabilidade de verdade, deve ser uma área cross. Ou seja, ela deve estar presente em tudo e ser um fator de integração na empresa. Eu, particularmente, sou da filosofia de que a área nem deveria existir, mas sim ser uma competência de todos os profissionais e uma etapa presente na operação de todas as áreas. Ok, utopia, mas continuo com o mantra de que trabalho para acabar com o meu emprego. Empresas fodas deveriam pensar assim. Um dia, no futuro, uma vai pensar e o resto vai seguir o fluxo. Porque é assim que funciona. Precisa um louco ousar para o business as usual adotar a prática.

Mas voltando à realidade de que hoje a área de sustentabilidade continua existindo e vai continuar assim por muito e muito tempo, reforço a necessidade de atuação integrada com as demais áreas. Não tem como ser diferente. Se a empresa não olha a sustentabilidade pela perspectiva dos processos, ela está brincando de fazer sustentabilidade. Independente da verba que ela dispõe anualmente, independente da quantidade de pessoas envolvidas e do escopo dos projetos realizados.

Uma das parcerias mais importantes para a área de sustentabilidade dentro de uma empresa é a que ela vai estabelecer com recursos humanos. Isso acontece desde os fundamentos mais básicos de ambas as áreas, até questões mais complexas. Por exemplo, ética, que é básico do básico da sustentabilidade. Na maioria das empresas o código de ética é desenvolvido pelo RH. Mas pergunto: quantos RHs se dispuseram a trabalhar junto com a área de sustentabilidade ou consulta-la na hora de estabelecer a ética e os valores corporativos?

Outra questão que agora está super na moda: diversidade. A modinha fez um monte de empresa querer ter um programa diversidade para chamar de seu e várias criaram uma área própria para isso. Sério, não precisa chegar a tanto. Na minha opinião diversidade não é área própria, mas escopo de RH. Só que não é dela sozinha. Porque diversidade também é pauta básica da sustentabilidade. Então é mais um momento e uma excelente oportunidade de as duas áreas juntarem seus trapinhos e, juntas, gerarem mais valor para a empresa.

Mais outra: recrutamento e seleção orientado para a sustentabilidade. Aqui não estou falando do perfil do profissional de sustentabilidade, mas das competências básicas que todos os funcionários, independente da área e do nível hierárquico, devem ter para trabalhar na empresa. Esta é, certamente, a mais negligenciada, o que é uma pena. Não me lembro de uma empresa que exija características de sustentabilidade para contratar funcionários, apesar de já ter visto esboço nesse sentido.

Trazer a sustentabilidade para o momento de recrutamento e seleção é, sem dúvidas, a ação muito, muito, muito impactante e a que mais pode se aproximar do ideal utópico de não precisar existir a área no futuro. Mesmo sendo ousada e mesmo estando hoje apenas no campo da teoria, ela é plenamente viável. Mas para ser possível é necessário o trabalho em conjunto de sustentabilidade e recursos humanos no desenho dessa estratégia.

Pensando pela outra perspectiva, a de como o RH pode ajudar a sustentabilidade, vejo três oportunidades: primeiro é no desenvolvimento da cultura da sustentabilidade. A sustentabilidade precisa do RH no desenvolvimento de diretrizes, de posicionamento da empresa, no desenho e na execução do plano de ação. Aí vem o segundo ato, que é o treinamento para a sustentabilidade, seja para a própria área, seja para toda a empresa.

Treinamento não é e nem precisa ser expertise de um profissional de sustentabilidade. Por isso, a forma mais eficaz de alcançar bons resultados e gerar valor para a empresa é envolver profissionais de recursos humanos que sejam responsáveis por esse processo. Porque a gente tem o conteúdo, mas eles têm todos os paranauês.

Pausa para um suplico: EaD não, por favor! Se você não quiser matar a capacitação em sustentabilidade, não faça EaD. Um dia explico o porquê. Fim da pausa.

Por fim, como ato final dessa sinfonia humanamente sustentável, trago a questão mais crítica que nós, profissionais de sustentabilidade, nos deparamos e nosso desafio diário: engajamento interno. Porque simplesmente não tem como falar de sustentabilidade corporativa se ela não é um valor posto em prática pelos funcionários em sua rotina de trabalho. E aí pergunto: quem pode nos ajudar nesse pepinão? O RH. Ah, o RH...


segunda-feira, 25 de março de 2019

Por que o business as usual não funciona para a sustentabilidade?


Uma das expressões mais “usuais” do dicionário corporativês é o tal do business as usual. Que, grosso modo, significa, fazer negócios como de costume. Isso é praxe nesse mundinho e por mais que estejamos na sociedade do conhecimento, na indústria 4.0 (já ouvi falar até da 5.0), a verdade é que as empresas fazem de tudo para se manterem no business as usual de sempre. Até mesmo as mais inovadoras. Porque na hora que o calo aperta, o comportamento todas é padrão. Padrão ruim.

Vou dar um exemplo: Uber. Ain, porque o uber está transformando o modo como as pessoas se relacionam com o transporte, porque está dando oportunidade de todas as classes sociais poderem usufruir de transporte individual de qualidade, porque dá oportunidade de renda para pessoas com qualquer nível escolar e bla bla bla. Bullshit.

Você já experimentou a infelicidade ter problema com algum motorista? Sabe qual é a resposta padrão do Uber? Somos apenas uma plataforma que reúne os motoristas. O máximo que você vai conseguir da empresa é que ela expulse o cara do sistema. Ponto. Agora pergunto: se não fosse a plataforma deles, você teria pego aquele motorista? Pois é. Então me responda: qual a diferença desse comportamento, para o da Nike, quando ela disse, em 1995, ao ser acusada de trabalho infantil na Ásia, que a culpa não era dela, mas do fornecedor?

Conforme escrevi no artigo da semana passada, o ser humano é um bicho que nasceu para viver e morrer na zona de conforto porque ele detesta mudança. Com as empresas é a mesma coisa. É preciso ter alguém muito louco que tenha coragem de ser o primeiro a fazer algo completamente fora do padrão para que a manada possa seguir o fluxo. A verdade é que inovar é fácil, muito fácil. O problema é sair fora da caixa.

Por mais que as empresas vendam o tal de “outside de box”, como se de fato elas fossem, por mais que elas digam que querem contratar pessoas com pensamentos disruptivos, a verdade bem verdadeira é que, repito, ser humano nasceu pra viver e morrer na zona de conforto. E digo por experiência própria, se você for uma pessoa assim, elas (as empresas) vão tentar a todo custo te enfiar dentro da caixa. Mas enfim, papo para outro post.

O que, então, o business as usual tem a ver com sustentabilidade? Na verdade, nada. Aliás, vou ser bem dura: a titulo de sustentabilidade, o business as usual pode até matar. E não, não estou exagerando. E explico. Lá atrás, quando sustentabilidade era mato e as empresas tinham uma resistência absurda em adotá-la (antes de chegar o primeiro louco e bancar o tema nas empresas), uma das frases mais bizarras que eu ouvi foi que “sustentabilidade (ou responsabilidade social, não lembro) para mim é cumprir a lei”. Quem disse isso foi um dos três bilionários na Ambev (Telles, Sicupira ou Lemann). Como não lembro quem foi, dou o crédito a todos, porque, sinceramente, não seria estranho que qualquer um deles falasse isso hoje. Que dirá 10, 15 anos atrás.

E o que eu quero dizer com isso? Quero dizer que muitas empresas baseiam suas ações de sustentabilidade, responsabilidade social e meio ambiente nas leis ou em um padrão de comportamento do que é praticado no business as usual. O que acontece é que, não raro, isso não é suficiente. Parece surreal pensar nisso hoje, mas antes do atentado de 2001 nos Estados Unidos, era possível viajar com objetos cortantes dentro de um avião. Precisou acontecer uma tragédia desse nível para que o padrão “world class” de segurança em aviões fosse atualizado.

É claro que nesses dois meses que sucederam a tragédia de Brumadinho, novas informações foram acrescentadas à investigação e há fortes indícios de que a Vale tenha manipulado os relatórios de segurança. Mas não vou esquecer jamais o então presidente da empresa, Fabio Schvartsman, dizendo que não entendia como aquilo poderia ter acontecido, já que a Vale segue padrões mundiais de segurança.

Não vou entrar no mérito do desenrolar da história e do que aconteceu, especificamente, em Brumadinho. Não é o propósito deste artigo. Mas eu já estive lá dentro da Vale e afirmo com toda isenção do mundo que sim, ela segue padrões mundiais de segurança. O que eu quero apontar aqui é: os padrões de classe mundial de sustentabilidade NÃO são suficientes para a sustentabilidade.

Diversos são os motivos para que isso aconteça. Um deles, e talvez o principal, é que há lobby fortíssimo por parte das empresas para que os padrões sejam o mínimo do mínimo do mínimo. Lembram o que eu escrevi lá em cima que nem pessoas nem empresas gostam de sair da zona de conforto? É isso, meu caro. Outra questão também é que a nossa mente ser condicionada à zona de conforto nos leva a tomar atitudes com base na reação.

A gente tem dificuldade enorme de entender situações hipotéticas, principalmente quando elas estão ligadas a uma série de variáveis. Sabe aquela situação mais absurda de acontecer, que ninguém calcula a probabilidade porque ela está na categoria de impossível? Acredite em mim, é com base nele que a gente tem de trabalhar a sustentabilidade. Não a partir de dados estatísticos de ocorrências.

Porque esperar algo trágico acontecer e a partir daí criar um protocolo de trabalho, é muito pouco para a sustentabilidade.  A gente está entrando numa seara de escassez crítica de recursos naturais, de mudanças climáticas e outras questões que não fazemos a menor ideia de onde isso vai dar. E a gente não raro, acaba pagando com a vida, porque não consegue sair do modo reação para prevenção.

Ain, Julianna, mas várias empresas têm cultura de sustentabilidade fortíssima, super bem trabalhada e super centrada nos colaboradores. Sim, tem. Padrão classe mundial, inclusive. Que, como já disse não funciona para a sustentabilidade.

Na verdade, o que está faltando, é fiofó para as pessoas e as empresas largarem o business as usual e darem o primeiro passo. Estamos sempre à espera que seja o nosso coleguinha do lado a fazer. Ele não vai fazer. Então você também não vai. E aí ninguém faz. E a gente passa a viver num mundo de faz de conta, com o discurso de que sustentabilidade é premissa básica de qualquer empresa.

Bullshit.



terça-feira, 19 de março de 2019

Consumidor sustentável até a página dois


O primeiro post que escrevi esse ano aqui no blog foi sobre a sustentabilidade das empresas até a página dois. Nele contei que, mesmo com o amadurecimento e a sofisticação das empresas/organizações em relação ao conceito de sustentabilidade, muitas acabavam não mantendo o discurso além da página dois. Acontece que assim como tem as empresas sustentáveis até a página dois, também tem os consumidores sustentáveis até a página dois.  Vamos a eles.

Primeiro é preciso entender que existem dois tipos de consumidores sustentáveis até a página dois. O tipo 1 é aquele ser greenwashing puro, que segue sustentabilidade pelo modismo e o gogó é mais afiado que qualquer atitude. Se a moda é ser vegano, ele faz discurso e blá blá blá. Capaz, até, de te xingar se você disser que come carne.

Se a moda é ser minimalista, não duvido nada que a pessoa faça um perfil nas redes sociais mostrando para o mundo como é um ser abnegado, que vive com meia dúzia de mudinhas de roupa. Porque para o consumidor tipo 1, não basta ser “sustentável”, tem de dizer ao mundo que é. E esse tipo é super fácil de ser desconstruído. É só ver no detalhe que o discurso é absolutamente frágil e que ele não sustenta uma conversa de sustentabilidade por meia hora. Esse perfil eu nem dou muita bola.

Vejamos o tipo 2. O outro consumidor sustentável até a página dois é o que me preocupa de verdade. Porque é onde está a maioria esmagadora da população, que daqui a pouco bate a casa dos oito bilhões. E quem seria esse consumidor? O consumidor sustentável até a página dois tipo 2 não tem a sustentabilidade causa, mas ele entende que é preciso fazer algo.

Só que como sustentabilidade não é a causa, o conhecimento do tipo 2 é limitado. Esse perfil se baseia muito nas manchetes de notícias e nos modismos. Ou seja, ele é altamente influenciado pelo marketing. Porque para esse consumidor, é irrelevante o senso crítico para a sustentabilidade. Basta seguir o que o fluxo está fazendo. Aí que mora o perigo. 

Por exemplo: o consumidor sustentável até a página dois tipo 2 acha que reciclagem é o suprassumo da sustentabilidade. Possivelmente ele não coloca isso em prática, mas acha que é o máximo que alguém sustentável chega.  Ele é um consumidor que fica passado com a história dos animais engolindo microplástico e comprou a ideia de que a solução é abolir os famigerados canudos de plástico.

O consumidor tipo 2, inclusive, tem o seu canudinho de metal, bambu ou vidro. Talvez tenha até encostadas no cabideiro algumas ecobags que ganhou de algum evento e não usa para nada. Se esse consumidor quiser alcançar o nirvana, pode ter certeza que vai pagar 50 reais naquele copo de silicone, que Deus sabe quando vai se decompor e na barriga de que bicho vai parar. Ah, não, copo sustentável de 50 reais quem compra o consumidor tipo 1.

Mas enfim, voltemos ao consumidor tipo 2. Ele reflete um comportamento que a mídia, tradicional ou da internet, passa para ele sobre o que é sustentabilidade. E é isso que as empresas querem que a gente acredite que seja sustentabilidade. A bem da verdade, para o consumidor sustentável até a página dois tipo 2, é ótimo que sustentabilidade seja exatamente essa que a mídia coloca e que o mundo impõe. Sabe por quê?

Porque o ser humano é um bicho que nasceu para viver e morrer na zona de conforto. A gente odeia mudança. Então quando falamos de reciclagem, quando falamos de pegar o plástico usado e fazer camiseta ou artesanato, quando falamos de simplesmente trocar a matéria prima de um produto por outra mais sustentável, o que estamos fazendo de verdade é apenas mudar a ponta final de um modelo econômico absolutamente insustentável.

Esse comportamento que é vendido como sustentável, nada mais é do que a gente assinar um documento chancelando um modo de produção e um estilo de vida que vem esgotando os recursos naturais planeta e deixando uma montanha de lixo como legado. É uma sustentabilidade praticamente inócua porque se ataca a consequência e não a causa.

A grande questão crítica da sustentabilidade, e para mim o maior problema dela, se chama consumo. É onde está a causa. É o que tem de ser atacado. A quantidade absurda de plástico que a indústria petroquímica produz é para atender demanda de consumo. A quantidade de petróleo queimada para virar energia, é para atender um estilo de vida nababesco. A quantidade de ferro, de ouro, de níquel, de qualquer minério extraído, é para atender demanda de produtos manufaturados. Acabar com a biodiversidade de um local para transformá-lo em pasto é para dar vazão a uma dieta nada sustentável (que fique claro, não sou vegana).

Então, quando a gente fala de trocar canudo de plástico por canudo de papel ou de vidro, estamos usando uma lógica de “sustentabilidade” completamente bizarra para um produto que, guardada as condições de quem realmente precisa, sequer é necessário. Tirar sacolas dos oceanos pra fazer tênis, é dizer para o mundo continuar mandando ver no consumo de plástico que no final das contas a gente faz uma coleção com eles e ainda descola uns trocados. Trocar um carro movido a gasolina por carro elétrico é certificar ao mundo que está tudo ok porque a partir de agora os engarrafamentos serão ecológicos.

Aí volto à questão do meio desse texto, quando falei que somos seres que nascemos para viver na zona de conforto. Para sermos uma pessoa sustentável até a página dois tipo 2, a gente não precisa se dar ao trabalho de mudar comportamento, mudar modelo mental, estilo de consumo nada. A gente nem precisa mudar tanta coisa. Na verdade, a gente não precisa mudar quase nada.

Ser sustentável tipo 2 é o mundo perfeito para o ser humano.  É só ficar de olho em uma ou outra coisinha e violà, fomos alçados à condição de cidadãos altamente preocupados com a sustentabilidade. E na outra ponta, deixar a sociedade praticando o mesmo modelo de consumo do século passado é o mundo perfeito para as empresas.

E no final das contas todo mundo fica feliz. A população em geral, que ou finge ou realmente acredita que o que é ela faz é sustentabilidade, e as empresas, que continuam fazendo o business as usual, versão verde século XXI. E o planeta? Ah, é, esqueci do planeta. Esse não fica nenhum pouco feliz com a história.  


Galera, o Sustentaí vai voltar com os ebooks gratuitos em 2019. Mas como vamos mudar o perfil do conteúdo, criamos uma pesquisa para saber o que você que acompanha sustentabilidade pelas redes sociais gostaria de ler. Não demora nem cinco minutinhos e você nos ajuda a construir as melhores narrativas possíveis de sustentabilidade.

Para acessa a pesquisa, basta clicar no link: https://goo.gl/forms/cpNlBtg1uh5yFE7I3

segunda-feira, 11 de março de 2019

As perguntas de sustentabilidade que ninguém quer responder


Confesso a vocês que sou uma pessoa cricri. Sim, eu sou. Se me perguntarem uma qualidade minha, digo que é a análise crítica. Porque eu não engulo qualquer coisa e nem me contento com qualquer resposta. Isso é na vida de uma forma geral. Com a sustentabilidade, obviamente, não seria diferente. Tanto que criei este blog há quase 10 anos justamente para dar vazão aos devaneios críticos que tenho sobre como as empresas encaram a sustentabilidade.

Mas ser a cricri, ser aquela que faz as perguntas fora do óbvio tem um preço. Eu quase sempre sou ignorada. E tudo bem por isso. Mas não deixa de ser curioso, já que evidencia o quanto as empresas praticam a sustentabilidade até a página dois. Porque na hora do veja bem, qualquer pergunta um pouquinho mais elaborada ou qualquer pergunta que não seja para elogiar a empresa fica num limbo esperando resposta.

Recentemente uma empresa postou no Linkedin que tinha zerado as emissões de carbono do escritório porque a energia dele era 100% renovável. A empresa postou, isso foi constantemente replicado por vários funcionários a ponto de eu ter passado umas duas semanas toda hora recebendo a notícia no meu feed.

Como esse massacre de réplicas da postagem estava me dando gastura, fiz uma singela pergunta no perfil da empresa: qual método ela tinha utilizado para zerar o carbono, já que energia não é o único fator de emissão? Tirando a minha pergunta, todos os demais comentários eram de parabéns ou elogiando a iniciativa. Todos tiveram réplica ou curtidas. O meu, ah o meu.

Ninguém da empresa teve a pachorra de apagar meu comentário, mas ele, obviamente, foi ignorado. Eu até imagino o porquê disso e até imagino que tenha sido mais culpa da área de comunicação do que da área de sustentabilidade. Mas empresa grande usando mentirinha branca para falar de sustentabilidade não deixa de ser greenwashing.

Na minha opinião, é dever da área de sustentabilidade zelar a informação que a comunicação posta sobre ela para que “mal-entendidos” não ocorram. Afinal, o público médio vai aceitar aquela informação como verdadeira. E se ela não zela, ela dando atestado de conivência. E isso para mim soa tão culpado quanto.

Outro exemplo vindo do Linkedin. Apareceu na minha timeline o post de uma menina que anunciava com muito orgulho que uma empresa de varejo tinha acabado de publicar o seu relatório de sustentabilidade, que era o primeiro relatório integrado do Brasil em 2019, que ele teve uma publicação recorde (realmente, qualquer relatório de sustentabilidade publicado antes de abril é um grande feito, integrado, então, é de ficar de joelhos) e confetes, confetes, confetes. No caso ela é da consultoria que fez o relatório.

Acontece que essa empresa, que foi a primeira a fazer relatório integrado em 2019, que apresentou para o público em tempo recorde um relatório que ninguém vai ler, há alguns anos teve implicação com trabalho escravo em sua cadeia de fornecedores. E no relatório da época não havia uma linha sequer falando sobre algum tipo de ação que ela fazia em relação a isso. Sendo que trabalho escravo é uma questão crítica para o segmento em que essa empresa atua.

Aí, imagina, entre um monte de post confete dando os parabéns, fui lá fazer a pergunta do milhinho: o que hoje, alguns anos depois dessa denúncia, a empresa faz em relação ao trabalho escravo na cadeia de fornecedores? E falei justamente que no relatório do ano em que isso aconteceu não havia nenhuma linha escrita sobre o assunto.

Não vou dizer que fui ignorada, mas... a resposta foi pior. Tipo, foi assim mesmo: eu não sou a pessoa mais indicada para falar do assunto por não ser da empresa. Oi? Oiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii? Quem fez o relatório, meu bem? Qual é a função dele, se não reportar a sustentabilidade da empresa? E nesse caso a coisa é ainda mais estranha, porque, CACETE, fui lá fuxicar o relatório e tem coisa escrita sobre trabalho escravo. Mas é aquilo, me deixou no vácuo e ignorou um público de interesse. Eu poderia me contentar com a não resposta e ter uma impressão ruim do relatório e até do trabalho dela.

Tinha outro exemplo no Linkedin, que o CEO de uma da empresa me ignorou, mas como já tem tempo e eu não lembro direito da história, vamos deixar quieto. A questão é que isso não se resume a Linkedin. É toda hora que acontece. Falemos de eventos. Ah, eventos... agora com essa mania de mandar a pergunta por escrito eu nunca que sou escolhida.

É claro que dou um alívio na barra do palestrante porque quando a pergunta é por papelzinho e eu sou ignorada, isso significa que a pessoa sequer sabe que eu perguntei. Mas aí tem aqueles casos raríssimos de quando consigo superar a barreira do mestre de cerimônias ou de quem seleciona as perguntas.

Aí a coisa fica engraçada. Porque a pergunta é feita. E não raro, um monte, mas um monte de gente enrola, enrola, enrola e responde uma coisa completamente aleatória achando que eu sou otária. A pergunta? Que pergunta, meu filho?

Mas afinal, o que eu quero passar com esse post?

A sustentabilidade das empresas é uma área extremamente sensível e, verdade seja dita, o telhado costuma ser de vidro. Vai ter sempre um lugar em que o calo aperta. E tudo bem por isso. Não existe sustentabilidade corporativa perfeita, sabemos bem que a área não tem apelo estratégico, não costuma ter poder de decisão e muita gente boa faz o que pode.

Só que ao mesmo tempo sei também que quando dá, vai ter aquela sujeirinha sendo empurrada para debaixo do tapete, assim como vai ter alguma história contada pela metade. Porque tem essa também. Vai ter muita empresa floreando a verdade. O tal do carbono zerado com energia renovável. Quem vai contestar, não é mesmo?

Eu vou. Sempre. E quem puder, faça o mesmo.

Porque um dos preceitos mais básicos da sustentabilidade é a transparência. Então, quando alguém tirar a sujeirinha de baixo do tapete, quando alguém perguntar pela outra metade da história, não faça a egípcia. Se a sua empresa não está disposta a, pelo menos. responder uma pergunta crítica, volta para o casulo porque não, ela não pode ser chamada de sustentável.