A sustentabilidade corporativa e os pensamentos elásticos

Como os pensamentos elásticos podem auxiliar a sustentabilidade das empresas

A sustentabilidade das empresas até a página dois

Será que as empresas praticam realmente a sustentabilidade ou ela só vai até a página dois?

As lições que aprendi no Dia Mundial da Limpeza em Aquiraz

O World Clean Up Day aconteceu em mais de 150 países no último dia 15 de setembro

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

A sustentabilidade corporativa e os pensamentos elásticos

Quando falo de sustentabilidade, principalmente sustentabilidade corporativa, falo com uma visão muito diferente do que as empresas mostram fazer no seu dia a dia. Por mais que a palavra esteja escrita dessa forma no organograma, a verdade é que a maioria utiliza a mesma lógica racional, mecanicista e linear de sempre. A engenharia (que eu amo, tá gente) foi fundamentada em um modelo de pensamento linear, o nosso sistema econômico foi pensado para ser racional. A nossa sociedade foi criada para ser assim, cartesiana.

Acontece que o novo século chegou e um turbilhão de coisas foi acontecendo. Tecnologia, inovação, bit byte, indústria perdendo o fôlego para empresas cujos ativos intangíveis estão cotados na casa do trilhão, globalização, cadeias de distribuição cada vez mais complexas, “brusinha” de 10 reais vinda da China, que por um acaso vem a ser a nova ordem econômica mundial.

Pá.  O mundo virou de cabeça para baixo.

Aí eu pergunto: quem aguenta lidar com essa pressão?

Tem um físico, que eu amo, chamado Leonard Mlodinow, que fala de pensamentos elásticos. E o que seria isso? Seria mais ou menos a gente sair do modo cartesiano e racional de pensar e ampliar os horizontes, buscar novas premissas e referências, novas visões, fazer coisas diferentes, tentar fazer agora coisas que não deram certo antes...

O pensamento elástico é um pensamento onde as regras não são seguidas, mas sim criadas. Mlodinow parte do princípio que o mundo, até então, foi mudando lentamente ao longo de milhares de anos e isso deu tempo para que pudéssemos evoluir e nos adaptar às mudanças. Mas agora, com as transformações ocorrendo em um piscar de olhos, não há mais esse tempo para que a gente incorpore a mudança em nossas vidas. Tudo ficou muito confuso, daí a necessidade de esticar os pensamentos.

Trazendo o conceito para a sustentabilidade, os pensamentos elásticos vão de encontro ao que outro físico que eu também amo, o Fritjof Capra, prega com a visão sistêmica. A visão sistêmica trabalha por meio de relações, padrões e contextos, onde tudo está correlacionado. É você ter múltiplas visões para uma mesma questão e entender que não é a soma de cada uma delas que vai dar o resultado que a gente quer, mas sim forma como essas visões interagem, se integram e se complementam.

E o que quero dizer quando afirmo lá no primeiro parágrafo que a sustentabilidade que eu acredito é diferente daquela que é praticada no dia-a-dia das empresas? Que mesmo estando na transição da economia industrial para a economia do conhecimento, basicamente o modelo de gestão das empresas é fundamentado em uma lógica cartesiana. Então para elas basta ter uma área de sustentabilidade formalizada e o kit sobrevivência, que vem a ser:

  • Uma carteira com projetos sociais e ambientais (todos atrelados aos ODS, é claro)
  • Área de comunicação que divulgue os feitos de sustentabilidade, afinal, para que fazer se ninguém fica sabendo?
  • Caneca para toda a força de trabalho, pois alguém instituiu que uma empresa só pode ser sustentável se não usar copos de plástico;
  • EaD safado que finge que capacita os funcionários em sustentabilidade;
  • Mudinha de planta (que ninguém vai plantar) entregue no dia da árvore;
  • Relatório de sustentabilidade pra ficar bem na fita, porque, né, todo mundo tem;
  • Foto do CEO com criança melequenta no dia do voluntariado, ilustrando a capa da revista da empresa.
Trazendo a premissa dos pensamentos elásticos para a sustentabilidade corporativa, o que seria, então, o modelo ideal? Poderia inclusive manter o kit sobrevivência (menos o EaD e a mudinha de planta), afinal, não há problema algum em querer capitalizar reputação fazendo coisas bonitinhas. O problema está em só fazer isso. E convenhamos, dá para fazer muito mais do que geralmente é feito e, não raro, sem grandes custos. E com retorno de verdade!

Tipo, vamos pensar. A lógica básica da sustentabilidade moderna é a relação causa x efeito. Partindo, então, dessa premissa, pergunto: como utilizar os indicadores ambientais, que são números brutos e frios, de forma que eles sejam capazes de gerar de valor real para a empresa? O que significa dizer que uma unidade operacional reduziu o desperdício de matéria prima, o consumo de água ou de energia? O que está por trás desses números?

O que a empresa está fazendo de diferente do que ela fazia há 10, 20 anos, que vai além de melhoria de processos e gera impactos positivos de sustentabilidade? Como as áreas da empresa, juntas, podem trabalhar em prol da sustentabilidade? Como a inovação pode ser aliada da sustentabilidade? O que já vem sendo feito aleatoriamente pelas áreas que diz respeito à sustentabilidade e pode ser replicado por outros setores e outras unidades?

Como a sustentabilidade pode ser fator-chave na transição da era industrial para a era do conhecimento? Como a habilidade dos colaboradores, independente do escopo de trabalho, pode me ajudar a alcançar resultados mais sustentáveis em todos os aspectos? Aliás, o que esses colaboradores pensam sobre sustentabilidade? Porque se eles replicam o modelo cartesiano do kit de sobrevivência, a empresa está falhando miseravelmente no caminhar para o futuro.

E aí, meus queridos, se isso estiver realmente acontecendo (e eu acredito que está), vamos ter um problemão. Porque gostem ou não, caminhar ao longo do século XXI tratando a sustentabilidade como ator de segunda classe é dar um tipo no pé. Algumas empresas já sacaram isso e estão correndo atrás. O setor de energia, por exemplo, que o diga. As outras, o tempo dirá.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

A sustentabilidade das empresas até a página dois

Em junho deste ano o blog completa 10 anos e é interessante ver como o que escrevi sobre sustentabilidade corporativa foi se sofisticando ao longo do tempo. Só que assim como fui melhorando no desenvolvimento do meu conteúdo, discurso e conhecimento a respeito do tema, as empresas também sofisticaram sua visão de sustentabilidade na última década, o que é fantástico! Mas... como tudo que tem bônus vem com ônus, posso dizer que elas também se sofisticaram na forma de fazer greenwashing

A diferença é que hoje o risco de quem conta uma mentira sustentável é muito maior, já que a sociedade não é mais a mesma de 10 anos atrás. As demandas e as críticas também se sofisticaram, graças a Deus. E é sobre essa sofisticação na enrolação que eu quero tratar no primeiro post de 2019. 

Não vou citar nomes aqui, pois o objetivo deste artigo não é polemizar e, muito menos, apontar o dedo para as empresas/instituições tal, tal e tal. O que quero é apenas fazer uma análise crítica da situação e alertar as pessoas sobre a famigerada embromation verde que as empresas cismam em praticar, mesmo já tendo passado 1/5 do século XXI. Pois bem, vamos então aos fatos para esclarecer melhor o que quero dizer quando coloco o título desse post como “A sustentabilidade das empresas só até a página dois”. 

No ano passado, uma entidade de classe aqui do Rio de Janeiro, que cravou em sua missão o termo desenvolvimento sustentável, realizou uma série de eventos cuja temática era, justamente, a sustentabilidade corporativa. Alguns eventos foram fracos, mas no geral posso dizer que a maioria dos que eu fui foi bem boa. E levando-se em consideração que o Rio sempre foi hostil ao tema, além do contexto econômico que estamos passando, a atitude é mais do que louvável. 

Então, não sei se quem é de fora do Rio ou fora do círculo da sustentabilidade sabe, mas em meados do ano passado a cidade do Rio de Janeiro passou a proibir que o comércio local disponibilizasse canudos de plástico nos estabelecimentos. Legal, não? E num mundo em que cada vez mais se discute problemas como o microplástico e a poluição dos oceanos, a atitude é super válida. Mesmo eu achando que a solução não esteja nas leis, mas com a gente, população. Afinal, mudar o comportamento e optar por não utilizar mais canudos (salvo quem realmente precisa) é muito mais efetivo, não é mesmo? 

Pois bem, e nesse trelelê dos canudos, o que foi que essa entidade de classe, super “antenada” com a sustentabilidade, fez? Um evento promovendo a conscientização para o problema do plástico descartável? Um evento para seus associados mostrando as oportunidades que vão surgir a partir do plastic free, movimento que está ganhando força no mundo inteiro? Não e não. 

A entidade que passou 2018 gastando rios de dinheiro promovendo eventos de sustentabilidade corporativa simplesmente foi fazer lobby com vereador para derrubar a lei dos canudos, já que seus associados fabricantes dos canudinhos de plástico reclamaram do prejuízo que a proibição estava trazendo a eles. Oi?

Segue o fluxo.

Nesses primeiros dias do ano, li em diversos sites sobre o pedido do Ministério Público para que o Youtube apague vídeos de canais que contém publicidade infantil escondida. Vamos voltar um pouquinho no tempo. Dezembro de 2018, navegando na internet, me deparo com a seguinte manchete: Youtuber de 8 anos fatura US$ 22 milhões em 2018 avaliando brinquedos. Somando por alto isso dá uns 80 milhões de reais. Criança. Oito anos. 80 milhões. Avaliando brinquedos. 

Aqui no Brasil as cifras estão muito longe dos 80 milhões de faturamento, mas o modus operandi das empresas, é o mesmo. Elas pagam para crianças falarem para outras crianças sobre seus produtos. Para piorar o que já é ruim, se a gente pegar essas marcas de brinquedo, por exemplo, todas, eu disse TODAS, vão ter lindas declarações de sustentabilidade, de ética, de valorização da infância, de diversidade e bla bla bla. 

Mas pergunto: que sustentabilidade? Que ética? Que valorização da infância? De que adianta colocar no mercado uma boneca negra que representa parte da sociedade até então negligenciada, se a forma de fazer essa boneca chegar na casa das pessoas é pagando para uma criança que ainda está em formação de valores e de senso crítico para ela mostrar na internet o seu “presente” a outras crianças?

Esses dois exemplos que dei sobre sustentabilidade corporativa até a página dois me fizeram lembrar de um dos melhores livros de sustentabilidade e que eu sempre recomendo a todos em meus cursos e palestras. Ele é, também, presença constante na bibliografia de meus artigos acadêmicos quando escrevo sobre inovação em modelo de negócios sustentáveis: Corporação 2020, do economista indiano Pavan Sukhdev. Se você ainda não leu, leia. Vale muito a pena. 


Em Corporação 2020, Sukhdev fala dos três maiores problemas que fizeram o capitalismo do século XX algo completamente insustentável: alavancagem financeira, lobby e publicidade. Não me vem à mente agora um exemplo financeiro para colocar aqui (mas óbvio que tem), mas vocês conseguem vislumbrar com os outros dois exemplos, que mesmo sofisticando a sustentabilidade e a forma de disseminar o seu valor, não raro, as empresas e entidades de classe continuam praticando e defendendo o mesmo modelo de gestão do século passado?

Aí eu pergunto: tem como isso dar certo agora, num mundo muito mais fluido, mais digital e tecnológico, sabendo que não deu certo décadas atrás, quando tudo era uma grande caixa preta?

...

Galera, nos últimos três anos, confesso, esse blog capengou e foi relegado a um papel nem de coadjuvante, mas de total figurante mesmo. Isso se deu por uma série de questões pessoais e profissionais, principalmente por causa do mestrado e de muito trabalho. Como sempre encarei esse espaço como uma oportunidade de extravasar meus devaneios e não como um meio de pagar meus boletos, teve uma hora que ficou complicado conciliar e eu precisei dar um tempo. 

Acontece que o mestrado já está acabando (\o/) e este espaço vai ser incorporado ao Sustentaí. Para quem não conhece, o Sustentaí é a startup que criei com o propósito de democratizar o conhecimento da sustentabilidade, transformando o tal do conteúdo cada vez mais sofisticado, em algo simples e digerível num café da manhã. 


O Sustentaí surgiu em 2017 e o que era para ser apenas um canal no Youtube, ganhou corpo em outras frentes. Como em 2018 fiquei sozinha, não tive braço para tirar diversas das coisas que tinha em mente do papel. No entanto, agora em 2019, ele já está sendo reposicionado e vai ganhar um contexto completamente diferente dos dois últimos anos.

E aí entra o O olhar sustentável, que passa a ser estratégico nesse novo posicionamento. Por conta disso ele voltou à ativa e será atualizado todas as segundas-feiras. Acompanhem aqui semanalmente textos críticos e ácidos sobre sustentabilidade corporativa e não deixem de curtir o Sustentaí nas redes sociais! 

Para quem ainda não segue o Sustentaí: 





Caso queiram acesso aos quatro e-books lançados pelo Sustentaí, solicite pelo email]: contato@sustentai.com 

Para quem quiser assinar a newsletter do Sustentaí, basta se cadastrar aqui: https://sustentai.us15.list-manage.com/subscribe/post?u=71b50565eafb60d013f94e311&id=fd3018f938 


Aguardem que muito mais novidades virão ao longo do ano!

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Gestão da Mudança para a Sustentabilidade na Amcham RJ/ES

Oi, galera, estou aqui de volta com a news para informar uma coisa bem legal. 

Quem perdeu o curso de Gestão da Mudança para a Sustentabilidade que aconteceu em julho no Rio de Janeiro terá outra oportunidade, ainda nesse mês de outubro. Por meio da Amcham RJ-ES, estarei ministrando o curso no dia 17/10, quarta-feira, das 09 às 18h na própria sede da Amcham, que fica na Praça Pio X, número 15, 5º andar, próximo à Candelária, no Centro do Rio. 

O curso é voltado para profissionais de diversas áreas, não apenas sustentabilidade, e para qualquer um que tenha interesse no tema. Durante um dia inteiro vamos fazer muitas atividades e vamos debater bastante sobre temas pertinentes para a sustentabilidade corporativa, principalmente o engajamento interno, que é uma das maiores dores da área

Esse curso é único no mercado e mescla o uso de ferramentas de sustentabilidade, administração estratégica, design thinking e comunicação. Ele é bem mão na massa e, ao final, os participantes terão feito um backcasting, criado personas, preenchido o mapa de empatia e o sustainable message grid.

Dessa vez o curso não está sendo conduzido pelo Sustentaí, mas pela própria Amcham, então toda a parte administrativa, como inscrição e pagamento deve ser feito diretamente com eles. O link com mais informações é esse: http://www.amchamrio.com.br/site-evento?evento.id=387

Quem tiver dúvidas técnicas sobre o curso pode perguntar diretamente a mim e quem tiver duvidas se ele é bom ou não, basta perguntar a um dos participantes das turmas de São Paulo e Rio! (o: 

Abaixo um pouquinho do que foi o curso no Rio e em São Paulo:




 

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

As lições que aprendi no Dia Mundial da Limpeza em Aquiraz

No início da semana passada, recebi um convite totalmente inesperado do pessoal do Beach Park, o de participar do Dia Mundial da Limpeza em Aquiraz, na região metropolitana de Fortaleza. Apesar de nunca ter participado de ações do movimento, aceitei. Mas antes de contar minha experiência, pausa para explicar aos leitores o que é o Dia Mundial da Limpeza.

 O Dia Mundial da Limpeza é uma ação global criada pela ONU e organizada pelo Let’s Do It, um movimento cívico iniciado na Estônia em 2008, quando 50 mil voluntários se mobilizaram para limpar o país inteiro em cinco horas. Desde então o movimento se espalhou pelo mundo e hoje está presente em mais de 150 países. Aqui no Brasil a ação é organizada pelo Instituto Limpa Brasil, que em suas diversas iniciativas já evitou que mais de 3.000 toneladas de resíduos fossem descartadas incorretamente.

 Pois bem, sendo a minha estreia no Dia Mundial da Limpeza, não fazia ideia do que esperar. A verdade é que por mais que eu trabalhe com sustentabilidade há bastante tempo, fiquei tentando adivinhar as motivações das pessoas em acordar cedo em pleno sábado para fazer um trabalho voluntário de coleta de lixo.

Mas acredite em mim, as pessoas vão. E vão no mundo inteiro, seja um sábado de sol, seja um sábado de chuva. E com isso, a primeira lição que aprendi com essa iniciativa foi que a sustentabilidade, a vontade de fazer a diferença, estão motivando cada vez mais as pessoas a atuarem em prol de um mundo melhor.

Lá em Aquiraz, a iniciativa foi capitaneada pela Pordunas, a Associação de Moradores de Porto das Dunas, em parceria com o Beach Park. Foram 300 voluntários vindos de três cidades do Ceará, o dobro do ano passado. Na ocasião, eles se dividiram em diversos grupos que percorreram os 6km da praia, além de alguns trechos urbanos e a APA do Rio Pacoti.

Manhê, olha eu aqui! Créditos: divulgação

A coisa mais linda foi ver a quantidade de crianças e adolescentes participando da ação, principalmente por causa do escotismo. E aí a segunda lição que eu tirei naquela manhã (e que na verdade eu já sabia, mas reafirmei minha convicção) foi: as crianças de hoje serão os adultos que salvarão o planeta amanhã. E como isso é bom!

E aí que durante o dia foram recolhidas 23 toneladas de lixo. Perceberam a insanidade? Vinte e três mil quilos de resíduos em um único dia. E olha que lá era tranquilo. Aqui no Rio, ao final de um dia de praia, a tragédia é completa. Para entenderem o que eu digo, no último réveillon de Copacabana, ao final da festa, os garis coletaram 290 toneladas de lixo. Surreal, não? E aí fica a terceira lição: educação é fundamental. Seja educação ambiental na escola, seja educação de civilidade dentro de casa.


Créditos: eu mesma

Acabou que não fui para Aquiraz apenas para cobrir o evento. Coloquei a mão na massa também e fui eu em busca dos resíduos. Confesso que recolhi umas coisas que não faziam sentido numa praia, tipo, uma fralda descartável. Sério. Mas também recolhi muita coisa óbvia, que não precisava estar lá, como cacos de vidro e copos plásticos.

Por uma questão local, uma coisa me chamou atenção e acredito que tenha de ser o novo foco na limpeza de praias, rios e mares: o micro lixo. Lá em Porto das Dunas, a praia recebe muitos pescadores e a coisa que mais recolhi foi pedaços e fios soltos de rede de pesca. Muitos, muitos, muitos mesmo. E acredito que boa parte tenha vindo do mar para a areia. Agora imagina o quanto disso não foi parar no estômago dos peixes? Porque é o que acontece. Então ficou aqui mais uma lição: não adianta só focar na educação das pessoas para não deixarem seus resíduos em qualquer lugar. É preciso mobilizar todo setor industrial e academia com pesquisa de materiais e mudanças nos processos produtivos para resolver o problema do micro e do nano lixo.


Créditos: divulgação

Enfim, esse foi o resumo não tão resumido dessa oportunidade sensacional de fazer o bem ao planeta. Isso sem contar todas as experiências que vivi nesses três dias. Por isso agradeço demais ao Beach Park por ter me proporcionado momentos inesquecíveis, nessa que, certamente, foi a melhor e mais incrível viagem que fiz por conta do blog. Ah, saibam que perguntei sobre o programa ambiental do parque, afinal, a água, o nosso bem mais valioso, é matéria prima fundamental para o funcionamento do complexo. E acreditem, é foda. Principalmente porque eles fazem um trabalho muito legal de sensibilização com um público altamente flutuante, o que torna tudo mais complicado.

E só para vocês se encantarem um pouquinho com o meu paraíso (o:

Vista do quarto em que fiquei no Suítes Beach Part Resort

quarta-feira, 13 de junho de 2018

O que os líderes das empresas pensam sobre sustentabilidade?


Ironia das brabas, a primeira versão desse texto foi escrita em 2010. Ou seja, tem oito anos. E a única coisa que fiz foi, basicamente, atualizar dados e links. A lógica e a crítica continuam quase que a mesma. E não, isso não é nada bom. Enfim, vamos lá.

De tempos em tempos a ONU publica um relatório que contém uma pesquisa que mostra a visão dos CEOs em relação à sustentabilidade. O primeiro relatório que li com profundidade foi o de 2010: “A new era of sustainability – UN Global Compact-Accenture CEO Study 2010”, que contou com entrevistas de 766 presidentes em 100 países, representando 25 setores da economia. Salve São Google porque me deu uma trabalheira para achar o link!

De acordo com esse estudo, 93% dos CEOs acreditavam que a sustentabilidade seria crítica para o sucesso do seu negócio no futuro. Além disso, 96% apontavam que as questões de sustentabilidade deveriam estar totalmente integradas à estratégia e operação da empresa. Era um salto extremamente considerável em relação à pesquisa anterior, quando o índice já era alto (72% em 2007).

Pois bem, 2016. Nossa, quanta coisa aconteceu de 2010 até 2016. Rio +20, término do Protocolo de Kyoto, Acordo de Paris, preço do petróleo no ralo, um maluco chamado Elon Musk emergindo, uma guerra climática tomando contornos políticos dramáticos e causando desconforto na Europa inteira, fim dos Objetivos do Milênio, lançamento dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, Donald Trump eleito...

E aí que em 2016 a ONU divulga mais uma edição do estudo conduzido em parceria com a Accenture sobre a percepção que os CEOs têm sobre sustentabilidade. O link na nova pesquisa está aqui, ó: The UN Global Compact-Accenture Strategy CEO Study 2016 Agenda 2030: A Window of Opportunity

Vamos brincar de pular para sete anos no tempo?

Para quem como eu é da vibe entendeu ou quer que desenhe, coloco o infográfico de 2016 com os principais dados aqui abaixo:



Para quem gosta das letrinhas, segue alguns desses dados devidamente comentados:

Mil CEOs entrevistados, mais de 100 países, mais de 25 indústrias. Do total, impressionantes 97% dos CEOs acreditam que cof, cof, cof, sustentabilidade é importante para o sucesso futuro dos seus negócios. Além disso, 89% dizem que o comprometimento com a sustentabilidade está se traduzindo em impacto real nos seus setores. Enquanto isso, 87% acreditam que os ODSs são uma oportunidade de repensar abordagens na criação de valor sustentável.

Já 80% dos CEOs acreditam que demonstrar um comprometimento com a sociedade é um diferencial na sua indústria, sem contar, ainda, que 88% deles acreditam que uma melhor integração de questões de sustentabilidade no mercado financeiro é essencial para se fazer progresso. Não é lindo?

Tem coisa melhor! Do total de entrevistados, 59% reportaram que sua empresa era capaz de quantificar com precisão o valor das iniciativas de sustentabilidade no seu negócio. Aleluia, irmão, é milagre da Copa!

Ok, piadas à parte, voltemos à linha do tempo de eventos que acontecerem entre o relatório de 2010 e o de 2016. Fator um: preço do petróleo. Não lembro datas exatas, mas em 2014 o barril atingiu o pico de 110 dólares e em 2016 ou 2015 ele chegou a custar menos de 30 dólares. Que CEO entrevistado teve fiofó de deixar passar essa promoçãozinha sensacional da energia de alto carbono e dizer que bancou o uso de energia renovável, mesmo com o IPCC lançando em 2014 um relatório dramático sobre aquecimento global?

Fator dois: cadê o comprometimento dos CEOs com uma sociedade que ganha centavos num mercado escravagista como a moda, que deixa milhões morrendo de fome enquanto se desperdiça 1/3 dos alimentos, que protela na justiça o pagamento de indenizações a moradores que perderam tudo no desastre de Mariana?

Tenho uma perguntinha cri cri: o que os CEOs entrevistados entendem por sustentabilidade corporativa? De verdade. Se 97% deles consideram o assunto crítico para o sucesso no futuro, o que eles fazem hoje para EFETIVAMENTE assegurarem isso? Lembrando que esse estudo vem sendo conduzido desde 2007, esta é a quarta publicação e em dez anos já dá para perceber muita coisa que, supostamente, foi feita.

Outra questão que me intrigou por demais é o fato de 79% dos entrevistados responderem que marca, confiança e reputação os levam para ações de sustentabilidade. Como diria o querido Silvio Santos, mah oooooe! Eu estou quase lendo greenwashing nas entrelinhas desses dados ou é só impressão minha?

Por mais que a pesquisa mostre dados sensacionais (no estudo tem outros; aqui procurei colocar os que achei mais interessantes), o que mais me chamou atenção disparadamente foi 590 CEOS dizerem que conseguem medir de forma precisa o valor criado pela sustentabilidade no negócio deles. Conta pra gente o segredo para a felicidade, por favor!

Será que, por um acaso os CEOs estariam se referindo aos indicadores GRI, tipo, quanto a empresa consumiu de energia em um ano ou quantas mulheres estão em cargos de liderança? Porque, convenhamos, que valor esse tipo de indicador mede?

Quando a gente fala de administração sustentável, o que interessa de verdade para o negócio não é saber quantas mulheres são gestoras, mas o quão bom para a empresa está sendo ter mais mulheres em cargos de liderança (cruzando dados de faturamento, relacionamento com stakeholders, retenção de talentos, inovação, performance da área, clima organizacional etc etc etc).

Porque quando a gente fala de administração sustentável, não interessa saber qual o consumo energético escopo um, dois e três da empresa. O que importa de verdade é a origem dessa energia, o impacto que a empresa vai sofrer com mudanças climáticas e o que ela vem fazendo para, efetivamente, reduzir suas emissões de gases do efeito estufa não por unidade produzida, mas por emissões totais.

Não, caros CEOs eu não duvido da resposta de vocês, mas o que é intrigante nessa história toda é que se as empresas realmente têm esses dados qualitativos, por que elas não reportam?

Ah, e não podemos esquecer que os próprios Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, lançados em 2015 pela ONU, e que é base para essa pesquisa de 2016, nada mais é de que uma melhoria dos Objetivos do Milênio lá de 2000 e que não foram bem sucedidos no alcance das metas.

Enfim, o objetivo desse texto foi apenas provocar e refletir sobre o panorama real da sustentabilidade nas empresas. Tirem as conclusões que acharem melhor, mas fica a dica: por mais cansativo que seja, por mais que entra ano, sai ano, o discurso fica em looping e a prática ande a passos de tartaruga, vejam sempre o copo meio cheio.

Qualquer sustentabilidade é sempre melhor que nenhuma sustentabilidade. Só tenham senso crítico para filtrarem o blá blá blá de sempre e antes de acreditarem em qualquer coisa, coloquem o veja bem para funcionar.

P.S. Não perca o curso de Gestão da Mudança para a Sustentabilidade. É um curso muito legal e super prático. A novidade é que nele, os participantes vão aprender o processo de gestão da mudança a partir de ferramentas de inovação, design thinking e sustentabilidade.


A primeira turma vai acontecer no Rio de Janeiro no dia 21/07. E atendendo a pedidos, estendemos o preço promocional para inscrições feitas até o dia 30/06. Para informações sobre o programa completo do curso, valores e políticas de desconto, basta enviar um email para contato@sustentai.com