As lições que aprendi no Dia Mundial da Limpeza em Aquiraz

O World Clean Up Day aconteceu em mais de 150 países no último dia 15 de setembro

O que os líderes das empresas pensam sobre sustentabilidade?

Será que alguma coisa mudou nos últimos oito anos?

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Gestão da Mudança para a Sustentabilidade na Amcham RJ/ES

Oi, galera, estou aqui de volta com a news para informar uma coisa bem legal. 

Quem perdeu o curso de Gestão da Mudança para a Sustentabilidade que aconteceu em julho no Rio de Janeiro terá outra oportunidade, ainda nesse mês de outubro. Por meio da Amcham RJ-ES, estarei ministrando o curso no dia 17/10, quarta-feira, das 09 às 18h na própria sede da Amcham, que fica na Praça Pio X, número 15, 5º andar, próximo à Candelária, no Centro do Rio. 

O curso é voltado para profissionais de diversas áreas, não apenas sustentabilidade, e para qualquer um que tenha interesse no tema. Durante um dia inteiro vamos fazer muitas atividades e vamos debater bastante sobre temas pertinentes para a sustentabilidade corporativa, principalmente o engajamento interno, que é uma das maiores dores da área

Esse curso é único no mercado e mescla o uso de ferramentas de sustentabilidade, administração estratégica, design thinking e comunicação. Ele é bem mão na massa e, ao final, os participantes terão feito um backcasting, criado personas, preenchido o mapa de empatia e o sustainable message grid.

Dessa vez o curso não está sendo conduzido pelo Sustentaí, mas pela própria Amcham, então toda a parte administrativa, como inscrição e pagamento deve ser feito diretamente com eles. O link com mais informações é esse: http://www.amchamrio.com.br/site-evento?evento.id=387

Quem tiver dúvidas técnicas sobre o curso pode perguntar diretamente a mim e quem tiver duvidas se ele é bom ou não, basta perguntar a um dos participantes das turmas de São Paulo e Rio! (o: 

Abaixo um pouquinho do que foi o curso no Rio e em São Paulo:




 

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

As lições que aprendi no Dia Mundial da Limpeza em Aquiraz

No início da semana passada, recebi um convite totalmente inesperado do pessoal do Beach Park, o de participar do Dia Mundial da Limpeza em Aquiraz, na região metropolitana de Fortaleza. Apesar de nunca ter participado de ações do movimento, aceitei. Mas antes de contar minha experiência, pausa para explicar aos leitores o que é o Dia Mundial da Limpeza.

 O Dia Mundial da Limpeza é uma ação global criada pela ONU e organizada pelo Let’s Do It, um movimento cívico iniciado na Estônia em 2008, quando 50 mil voluntários se mobilizaram para limpar o país inteiro em cinco horas. Desde então o movimento se espalhou pelo mundo e hoje está presente em mais de 150 países. Aqui no Brasil a ação é organizada pelo Instituto Limpa Brasil, que em suas diversas iniciativas já evitou que mais de 3.000 toneladas de resíduos fossem descartadas incorretamente.

 Pois bem, sendo a minha estreia no Dia Mundial da Limpeza, não fazia ideia do que esperar. A verdade é que por mais que eu trabalhe com sustentabilidade há bastante tempo, fiquei tentando adivinhar as motivações das pessoas em acordar cedo em pleno sábado para fazer um trabalho voluntário de coleta de lixo.

Mas acredite em mim, as pessoas vão. E vão no mundo inteiro, seja um sábado de sol, seja um sábado de chuva. E com isso, a primeira lição que aprendi com essa iniciativa foi que a sustentabilidade, a vontade de fazer a diferença, estão motivando cada vez mais as pessoas a atuarem em prol de um mundo melhor.

Lá em Aquiraz, a iniciativa foi capitaneada pela Pordunas, a Associação de Moradores de Porto das Dunas, em parceria com o Beach Park. Foram 300 voluntários vindos de três cidades do Ceará, o dobro do ano passado. Na ocasião, eles se dividiram em diversos grupos que percorreram os 6km da praia, além de alguns trechos urbanos e a APA do Rio Pacoti.

Manhê, olha eu aqui! Créditos: divulgação

A coisa mais linda foi ver a quantidade de crianças e adolescentes participando da ação, principalmente por causa do escotismo. E aí a segunda lição que eu tirei naquela manhã (e que na verdade eu já sabia, mas reafirmei minha convicção) foi: as crianças de hoje serão os adultos que salvarão o planeta amanhã. E como isso é bom!

E aí que durante o dia foram recolhidas 23 toneladas de lixo. Perceberam a insanidade? Vinte e três mil quilos de resíduos em um único dia. E olha que lá era tranquilo. Aqui no Rio, ao final de um dia de praia, a tragédia é completa. Para entenderem o que eu digo, no último réveillon de Copacabana, ao final da festa, os garis coletaram 290 toneladas de lixo. Surreal, não? E aí fica a terceira lição: educação é fundamental. Seja educação ambiental na escola, seja educação de civilidade dentro de casa.


Créditos: eu mesma

Acabou que não fui para Aquiraz apenas para cobrir o evento. Coloquei a mão na massa também e fui eu em busca dos resíduos. Confesso que recolhi umas coisas que não faziam sentido numa praia, tipo, uma fralda descartável. Sério. Mas também recolhi muita coisa óbvia, que não precisava estar lá, como cacos de vidro e copos plásticos.

Por uma questão local, uma coisa me chamou atenção e acredito que tenha de ser o novo foco na limpeza de praias, rios e mares: o micro lixo. Lá em Porto das Dunas, a praia recebe muitos pescadores e a coisa que mais recolhi foi pedaços e fios soltos de rede de pesca. Muitos, muitos, muitos mesmo. E acredito que boa parte tenha vindo do mar para a areia. Agora imagina o quanto disso não foi parar no estômago dos peixes? Porque é o que acontece. Então ficou aqui mais uma lição: não adianta só focar na educação das pessoas para não deixarem seus resíduos em qualquer lugar. É preciso mobilizar todo setor industrial e academia com pesquisa de materiais e mudanças nos processos produtivos para resolver o problema do micro e do nano lixo.


Créditos: divulgação

Enfim, esse foi o resumo não tão resumido dessa oportunidade sensacional de fazer o bem ao planeta. Isso sem contar todas as experiências que vivi nesses três dias. Por isso agradeço demais ao Beach Park por ter me proporcionado momentos inesquecíveis, nessa que, certamente, foi a melhor e mais incrível viagem que fiz por conta do blog. Ah, saibam que perguntei sobre o programa ambiental do parque, afinal, a água, o nosso bem mais valioso, é matéria prima fundamental para o funcionamento do complexo. E acreditem, é foda. Principalmente porque eles fazem um trabalho muito legal de sensibilização com um público altamente flutuante, o que torna tudo mais complicado.

E só para vocês se encantarem um pouquinho com o meu paraíso (o:

Vista do quarto em que fiquei no Suítes Beach Part Resort

quarta-feira, 13 de junho de 2018

O que os líderes das empresas pensam sobre sustentabilidade?


Ironia das brabas, a primeira versão desse texto foi escrita em 2010. Ou seja, tem oito anos. E a única coisa que fiz foi, basicamente, atualizar dados e links. A lógica e a crítica continuam quase que a mesma. E não, isso não é nada bom. Enfim, vamos lá.

De tempos em tempos a ONU publica um relatório que contém uma pesquisa que mostra a visão dos CEOs em relação à sustentabilidade. O primeiro relatório que li com profundidade foi o de 2010: “A new era of sustainability – UN Global Compact-Accenture CEO Study 2010”, que contou com entrevistas de 766 presidentes em 100 países, representando 25 setores da economia. Salve São Google porque me deu uma trabalheira para achar o link!

De acordo com esse estudo, 93% dos CEOs acreditavam que a sustentabilidade seria crítica para o sucesso do seu negócio no futuro. Além disso, 96% apontavam que as questões de sustentabilidade deveriam estar totalmente integradas à estratégia e operação da empresa. Era um salto extremamente considerável em relação à pesquisa anterior, quando o índice já era alto (72% em 2007).

Pois bem, 2016. Nossa, quanta coisa aconteceu de 2010 até 2016. Rio +20, término do Protocolo de Kyoto, Acordo de Paris, preço do petróleo no ralo, um maluco chamado Elon Musk emergindo, uma guerra climática tomando contornos políticos dramáticos e causando desconforto na Europa inteira, fim dos Objetivos do Milênio, lançamento dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, Donald Trump eleito...

E aí que em 2016 a ONU divulga mais uma edição do estudo conduzido em parceria com a Accenture sobre a percepção que os CEOs têm sobre sustentabilidade. O link na nova pesquisa está aqui, ó: The UN Global Compact-Accenture Strategy CEO Study 2016 Agenda 2030: A Window of Opportunity

Vamos brincar de pular para sete anos no tempo?

Para quem como eu é da vibe entendeu ou quer que desenhe, coloco o infográfico de 2016 com os principais dados aqui abaixo:



Para quem gosta das letrinhas, segue alguns desses dados devidamente comentados:

Mil CEOs entrevistados, mais de 100 países, mais de 25 indústrias. Do total, impressionantes 97% dos CEOs acreditam que cof, cof, cof, sustentabilidade é importante para o sucesso futuro dos seus negócios. Além disso, 89% dizem que o comprometimento com a sustentabilidade está se traduzindo em impacto real nos seus setores. Enquanto isso, 87% acreditam que os ODSs são uma oportunidade de repensar abordagens na criação de valor sustentável.

Já 80% dos CEOs acreditam que demonstrar um comprometimento com a sociedade é um diferencial na sua indústria, sem contar, ainda, que 88% deles acreditam que uma melhor integração de questões de sustentabilidade no mercado financeiro é essencial para se fazer progresso. Não é lindo?

Tem coisa melhor! Do total de entrevistados, 59% reportaram que sua empresa era capaz de quantificar com precisão o valor das iniciativas de sustentabilidade no seu negócio. Aleluia, irmão, é milagre da Copa!

Ok, piadas à parte, voltemos à linha do tempo de eventos que acontecerem entre o relatório de 2010 e o de 2016. Fator um: preço do petróleo. Não lembro datas exatas, mas em 2014 o barril atingiu o pico de 110 dólares e em 2016 ou 2015 ele chegou a custar menos de 30 dólares. Que CEO entrevistado teve fiofó de deixar passar essa promoçãozinha sensacional da energia de alto carbono e dizer que bancou o uso de energia renovável, mesmo com o IPCC lançando em 2014 um relatório dramático sobre aquecimento global?

Fator dois: cadê o comprometimento dos CEOs com uma sociedade que ganha centavos num mercado escravagista como a moda, que deixa milhões morrendo de fome enquanto se desperdiça 1/3 dos alimentos, que protela na justiça o pagamento de indenizações a moradores que perderam tudo no desastre de Mariana?

Tenho uma perguntinha cri cri: o que os CEOs entrevistados entendem por sustentabilidade corporativa? De verdade. Se 97% deles consideram o assunto crítico para o sucesso no futuro, o que eles fazem hoje para EFETIVAMENTE assegurarem isso? Lembrando que esse estudo vem sendo conduzido desde 2007, esta é a quarta publicação e em dez anos já dá para perceber muita coisa que, supostamente, foi feita.

Outra questão que me intrigou por demais é o fato de 79% dos entrevistados responderem que marca, confiança e reputação os levam para ações de sustentabilidade. Como diria o querido Silvio Santos, mah oooooe! Eu estou quase lendo greenwashing nas entrelinhas desses dados ou é só impressão minha?

Por mais que a pesquisa mostre dados sensacionais (no estudo tem outros; aqui procurei colocar os que achei mais interessantes), o que mais me chamou atenção disparadamente foi 590 CEOS dizerem que conseguem medir de forma precisa o valor criado pela sustentabilidade no negócio deles. Conta pra gente o segredo para a felicidade, por favor!

Será que, por um acaso os CEOs estariam se referindo aos indicadores GRI, tipo, quanto a empresa consumiu de energia em um ano ou quantas mulheres estão em cargos de liderança? Porque, convenhamos, que valor esse tipo de indicador mede?

Quando a gente fala de administração sustentável, o que interessa de verdade para o negócio não é saber quantas mulheres são gestoras, mas o quão bom para a empresa está sendo ter mais mulheres em cargos de liderança (cruzando dados de faturamento, relacionamento com stakeholders, retenção de talentos, inovação, performance da área, clima organizacional etc etc etc).

Porque quando a gente fala de administração sustentável, não interessa saber qual o consumo energético escopo um, dois e três da empresa. O que importa de verdade é a origem dessa energia, o impacto que a empresa vai sofrer com mudanças climáticas e o que ela vem fazendo para, efetivamente, reduzir suas emissões de gases do efeito estufa não por unidade produzida, mas por emissões totais.

Não, caros CEOs eu não duvido da resposta de vocês, mas o que é intrigante nessa história toda é que se as empresas realmente têm esses dados qualitativos, por que elas não reportam?

Ah, e não podemos esquecer que os próprios Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, lançados em 2015 pela ONU, e que é base para essa pesquisa de 2016, nada mais é de que uma melhoria dos Objetivos do Milênio lá de 2000 e que não foram bem sucedidos no alcance das metas.

Enfim, o objetivo desse texto foi apenas provocar e refletir sobre o panorama real da sustentabilidade nas empresas. Tirem as conclusões que acharem melhor, mas fica a dica: por mais cansativo que seja, por mais que entra ano, sai ano, o discurso fica em looping e a prática ande a passos de tartaruga, vejam sempre o copo meio cheio.

Qualquer sustentabilidade é sempre melhor que nenhuma sustentabilidade. Só tenham senso crítico para filtrarem o blá blá blá de sempre e antes de acreditarem em qualquer coisa, coloquem o veja bem para funcionar.

P.S. Não perca o curso de Gestão da Mudança para a Sustentabilidade. É um curso muito legal e super prático. A novidade é que nele, os participantes vão aprender o processo de gestão da mudança a partir de ferramentas de inovação, design thinking e sustentabilidade.


A primeira turma vai acontecer no Rio de Janeiro no dia 21/07. E atendendo a pedidos, estendemos o preço promocional para inscrições feitas até o dia 30/06. Para informações sobre o programa completo do curso, valores e políticas de desconto, basta enviar um email para contato@sustentai.com

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Por que as empresas dão tanto valor aos relatórios de sustentabilidade?

Confesso a todos que eu não sou lá muito fã de relatórios de sustentabilidade. Na verdade não sou nada fã. É claro que acho que deve haver uma prestação de contas pública a respeito das ações de sustentabilidade. Mas também acho que relatório é nada mais do que isso. Prestação de contas. Ponto.

Acontece que para muitas empresas, o relatório ganhou um protagonismo que, para mim, não faz o menor sentido. Em tese, repito, ele é apenas a prestação de contas daquilo que foi feito. DAQUILO. QUE. FOI. FEITO. Relatório não passa da ponta final de todo um processo de gestão de sustentabilidade cuja estrela tem de ser a execução no dia a dia daquilo que foi planejado. E aí eu pergunto: por que tanto cuidado com o final se o meio e o início são, simplesmente, relegados a um segundo plano?

Sinceramente acho que pouco deveria importar a metodologia de coleta de dados (sério, isso é simples demais para a montanha de dificuldade que as empresas dizem ter nessa etapa) ou em qual versão GRI o reporte é feito. Para não me chamarem de velha ranzinza que reclama de tudo, assumo que a definição de materialidade é bem estratégica para a empresa e, se bem feita, pode ter utilidade. O problema é que quase nunca utilizam essa ferramenta para outra coisa que não relatório de sustentabilidade.

Mas voltando ao modo ranzinza e adicionando uma pitada de sinceridade, a verdade e que relatório de sustentabilidade é um documento que pouca gente lê. Vamos lá, confessem, quantos relatórios de sustentabilidade vocês leram esse ano? Se não me engano, o último que li de cabo a rabo foi em 2014. Apenas porque eu tinha de transformar esse relatório específico em uma revista palatável ao público. Senão juro que não lia não. Mas pergunto: vocês leem, pelo menos, o relatório de sustentabilidade da empresa de vocês?

Outro ponto crítico é que a forma como os indicadores são relatados hoje não despertam nenhum interesse do mercado financeiro. No texto que escrevi sobre o tempo perdido da sustentabilidade, questionei gente da própria GRI sobre cobrar das empresas o impacto dos indicadores reportados no negócio. Lembram que ouvi como resposta que isso não era uma iniciativa de responsabilidade da GRI?

Conheço empresas/consultorias que cobram R$ 200.000,00 (e muitas vezes até mais) para escrever um relatório. DUZENTOS. MIL. ESCREVER. UM. RELATÓRIO. (Alô empresas, faço por bem menos e entrego muito mais rápido!) Conheço empresas que mal fazem sustentabilidade e um dia tiveram a pachorra de criar uma gerência de GRI. GERÊNCIA. DE. GRI. Com direito a analistas, estagiário e suporte de consultoria. Essa, definitivamente, é a história mais surreal de sustentabilidade que eu conheço.

Conheço universidade que criou linha de pesquisa de mestrado/doutorado para GRI. Imaginem uma pessoa sofrendo que nem um cão num mestrado, para, no final, escrever sobre a importância de relatar o que as empresas fingem que fazem para um mercado que finge que acredita no que finge que lê. Sério, já li dissertação sobre a importância dos relatórios de sustentabilidade para as empresas. Pelo menos a dissertação era mais divertida que os próprios relatórios.

Mas aí pergunto: para que tanto investimento financeiro, de esforço, de estratégia corporativa, de recursos humanos, para um mero relatório de sustentabilidade? Será que ele é mais importante do que colocar em prática e monitorar a sustentabilidade dentro de uma empresa? Não, não é!

O que acontece é que preocupadas basicamente com reputação e de olho no que seus pares fazem, as empresas investem na construção de relatórios que beiram a ficção. Sim, porque o que se tem hoje são relatórios que contam uma história onde acidentes não estão na boca de acontecer, onde conflitos sociais são problemas de fácil solução, onde o impacto de operações industriais na fauna e flora pode ser compensado com a simples construção de uma escola, onde as emissões de gases do efeito estufa são irrelevantes para as mudanças climáticas e, principalmente, onde as externalidades são apenas externalidades. Dos outros.

Pena que desde a imposição do modelo de relatório G4, a GRI sossegou o faixo das empresas em serem nível A+ sem a menor necessidade para isso. Para quem não sabe, o A+ significava que as empresas reportavam todos os indicadores e o relatório passava por auditoria externa. E que fique registrado: a maioria das empresas só era A+ para se mostrar ao mercado e fazer publicidade em cima disso.

E com um monte de livros de ficção (sim, relatórios com mais de 80 páginas em tamanho A4 são livros, convenhamos!) publicados anualmente, as empresas vão fingindo que fazem sustentabilidade. Mas não, elas não fazem. Muito longe disso. Inclusive empresas com relatórios impecáveis são verdadeiramente insustentáveis.

Ah, Julianna, mas os relatórios são auditados por terceiros. Como assim você os chama de obras de ficção? Queridos, eu já mostrei em curso como as empresas manipulam uma auditoria externa de relatório de sustentabilidade de forma que os indicadores críticos não joguem a sua reputação no ralo. É a coisa mais fácil e, até, simplória de se fazer, se é o que querem saber.

Mas enfim, recado dado, queria muito que as empresas olhassem mais para as etapas iniciais da sustentabilidade que são as mais importantes. Entra ano, sai ano, a gente sempre continua nessa enrolação me engana que eu gosto. Acontece que estamos na transição da era industrial para a era do conhecimento e a sustentabilidade corporativa, assim como todo modelo mental das pessoas vai mudar. Novas formas de consumo, de produção, de uso das coisas.

Só que a verdade é que na beira de 2020, a gente ainda capenga na sustentabilidade que era para ser do século passado. Como já disse nesse mesmo texto sobre a década perdida da sustentabilidade, a gente não só não fez o que tinha de fazer, como regredimos.

Mas como não costumo desistir no meio do caminho e muito menos me entregar ao que é mais fácil, proponho: que tal pararmos de pensar um pouquinho em relatórios, em projetinhos sociais de escolinha de futebol e coisas do tipo e começarmos a praticar sustentabilidade corporativa de gente grande?

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Empreendedorismo social x empreendedorismo sustentável


Falar de empreendedorismo ou negócio social já não é algo estranho para o público médio. O tema é recorrente em publicações, na TV, nas universidades, nas redes sociais... já tem até curso sobre isso e até mesmo hackathons. Apesar de ser tema recorrente, não raro, as pessoas confundem empreendedorismo social e empreendedorismo sustentável. Acontece que, mesmo sendo temas bem interligados, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

Há alguns anos, quando o chamado empreendedorismo social começava a despontar, ele, sequer, tinha esse nome. Era chamado de setor dois e meio ou quatro setor. Inclusive, a quem interessar possa, tem um texto que escrevi sobre isso há quase sete anos. Segue o link: http://www.sustentabilidadecorporativa.com/2011/05/sustentabilidade-e-o-quarto-setor-ou-o.html.

Apesar de extrema importância, confesso que vejo muito nos dias de hoje uma glamourização, uma goumertização e uma modinha por negócios sociais. Afinal, é bonito, a gente ganha um quinhão no céu e ninguém tem coragem de chamar empreendedor social de opressor da massa trabalhadora. Enfim, não entrarei muito na questão filosófica que cerca os negócios sociais, mas o fato é que tem muita gente acha que isso é sustentabilidade. Não, não é. Ou melhor, não necessariamente.

Grosso modo, os negócios sociais são um setor onde as organizações possuem fins lucrativos, mas atuam voltadas para uma causa específica. É atuando nessa causa que entra o conceito de geração de valor, que o povo adora, mas frisando que gerar valor não é exclusivo de negócios sociais (mas isso é papo para outro post).

Por exemplo: uma organização voltada para alimentação saudável que trabalha no desenvolvimento de cooperativas de agricultura orgânica. Uma empresa que trabalha com produtos ou soluções voltadas para o empoderamento feminino. Uma empresa que ajuda a melhorar as habitações em regiões da periferia das cidades.

Para quem tem interesse em negócios sociais, um bom lugar para começar a se inteirar sobre o assunto é o Social Good Brasil, uma organização cujo propósito é disseminar e incentivar o uso das novas tecnologias e mídias sociais para enfrentar os grandes problemas mundiais.

Outro lugar bem bacana é o Yunus Negócios Sociais, que é a unidade brasileira da Yunus Social Business Global Initiative. A YNS tem como objetivo desenvolver negócios sociais pelo país através de seu fundo de investimentos e aceleradora para negócios sociais.

Mas Julianna, se isso não é empreendedorismo sustentável, é o que então? É negócio social, ué. Volte ao quinto parágrafo e leia novamente a definição.

Vamos lá, meu jovem, uma coisa que é legal saber: todo empreendimento social é, potencialmente, um empreendimento sustentável. Nem todo empreendimento sustentável é um empreendimento social.
Quando falamos de empreendedorismo sustentável, não estamos falando das causas que motivam as empresas a surgirem, nem dos problemas socioambientais que elas querem resolver, mas de como a sustentabilidade atua no modelo de gestão de uma empresa, nos processos operacionais, nos processos de negócio, no planejamento estratégico, no produto.

Por exemplo: uma pessoa que resolve abrir uma empresa de entregas que só funciona com bicicletas, é um empreendimento sustentável sem ser um negócio social. Ou um restaurante que só utiliza legumes, verduras e frutas de agricultura familiar. Ou uma empresa que utiliza a economia circular para gerar menos resíduo em sua produção.

Lembrando que não basta uma ação ou um processo específico para o empreendimento ser sustentável. É preciso que a sustentabilidade esteja inserida dentro de uma visão sistêmica e integrada à gestão.

E lembrando, também, que atuando ou não em uma causa, seja um negócio que vai transformar o mundo ou apenas mais um negócio no bairro, o empreendedorismo social e o empreendedorismo sustentável são fundamentais para o bom funcionamento de qualquer sociedade.