Empreendedorismo social x empreendedorismo sustentável

Você sabe a diferença entre um e outro?

A crise econômica e a crise da sustentabilidade nas empresas

Será que a crise da sustentabilidade no país é só por causa da nossa crise econômica?

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Por que as empresas dão tanto valor aos relatórios de sustentabilidade?

Confesso a todos que eu não sou lá muito fã de relatórios de sustentabilidade. Na verdade não sou nada fã. É claro que acho que deve haver uma prestação de contas pública a respeito das ações de sustentabilidade. Mas também acho que relatório é nada mais do que isso. Prestação de contas. Ponto.

Acontece que para muitas empresas, o relatório ganhou um protagonismo que, para mim, não faz o menor sentido. Em tese, repito, ele é apenas a prestação de contas daquilo que foi feito. DAQUILO. QUE. FOI. FEITO. Relatório não passa da ponta final de todo um processo de gestão de sustentabilidade cuja estrela tem de ser a execução no dia a dia daquilo que foi planejado. E aí eu pergunto: por que tanto cuidado com o final se o meio e o início são, simplesmente, relegados a um segundo plano?

Sinceramente acho que pouco deveria importar a metodologia de coleta de dados (sério, isso é simples demais para a montanha de dificuldade que as empresas dizem ter nessa etapa) ou em qual versão GRI o reporte é feito. Para não me chamarem de velha ranzinza que reclama de tudo, assumo que a definição de materialidade é bem estratégica para a empresa e, se bem feita, pode ter utilidade. O problema é que quase nunca utilizam essa ferramenta para outra coisa que não relatório de sustentabilidade.

Mas voltando ao modo ranzinza e adicionando uma pitada de sinceridade, a verdade e que relatório de sustentabilidade é um documento que pouca gente lê. Vamos lá, confessem, quantos relatórios de sustentabilidade vocês leram esse ano? Se não me engano, o último que li de cabo a rabo foi em 2014. Apenas porque eu tinha de transformar esse relatório específico em uma revista palatável ao público. Senão juro que não lia não. Mas pergunto: vocês leem, pelo menos, o relatório de sustentabilidade da empresa de vocês?

Outro ponto crítico é que a forma como os indicadores são relatados hoje não despertam nenhum interesse do mercado financeiro. No texto que escrevi sobre o tempo perdido da sustentabilidade, questionei gente da própria GRI sobre cobrar das empresas o impacto dos indicadores reportados no negócio. Lembram que ouvi como resposta que isso não era uma iniciativa de responsabilidade da GRI?

Conheço empresas/consultorias que cobram R$ 200.000,00 (e muitas vezes até mais) para escrever um relatório. DUZENTOS. MIL. ESCREVER. UM. RELATÓRIO. (Alô empresas, faço por bem menos e entrego muito mais rápido!) Conheço empresas que mal fazem sustentabilidade e um dia tiveram a pachorra de criar uma gerência de GRI. GERÊNCIA. DE. GRI. Com direito a analistas, estagiário e suporte de consultoria. Essa, definitivamente, é a história mais surreal de sustentabilidade que eu conheço.

Conheço universidade que criou linha de pesquisa de mestrado/doutorado para GRI. Imaginem uma pessoa sofrendo que nem um cão num mestrado, para, no final, escrever sobre a importância de relatar o que as empresas fingem que fazem para um mercado que finge que acredita no que finge que lê. Sério, já li dissertação sobre a importância dos relatórios de sustentabilidade para as empresas. Pelo menos a dissertação era mais divertida que os próprios relatórios.

Mas aí pergunto: para que tanto investimento financeiro, de esforço, de estratégia corporativa, de recursos humanos, para um mero relatório de sustentabilidade? Será que ele é mais importante do que colocar em prática e monitorar a sustentabilidade dentro de uma empresa? Não, não é!

O que acontece é que preocupadas basicamente com reputação e de olho no que seus pares fazem, as empresas investem na construção de relatórios que beiram a ficção. Sim, porque o que se tem hoje são relatórios que contam uma história onde acidentes não estão na boca de acontecer, onde conflitos sociais são problemas de fácil solução, onde o impacto de operações industriais na fauna e flora pode ser compensado com a simples construção de uma escola, onde as emissões de gases do efeito estufa são irrelevantes para as mudanças climáticas e, principalmente, onde as externalidades são apenas externalidades. Dos outros.

Pena que desde a imposição do modelo de relatório G4, a GRI sossegou o faixo das empresas em serem nível A+ sem a menor necessidade para isso. Para quem não sabe, o A+ significava que as empresas reportavam todos os indicadores e o relatório passava por auditoria externa. E que fique registrado: a maioria das empresas só era A+ para se mostrar ao mercado e fazer publicidade em cima disso.

E com um monte de livros de ficção (sim, relatórios com mais de 80 páginas em tamanho A4 são livros, convenhamos!) publicados anualmente, as empresas vão fingindo que fazem sustentabilidade. Mas não, elas não fazem. Muito longe disso. Inclusive empresas com relatórios impecáveis são verdadeiramente insustentáveis.

Ah, Julianna, mas os relatórios são auditados por terceiros. Como assim você os chama de obras de ficção? Queridos, eu já mostrei em curso como as empresas manipulam uma auditoria externa de relatório de sustentabilidade de forma que os indicadores críticos não joguem a sua reputação no ralo. É a coisa mais fácil e, até, simplória de se fazer, se é o que querem saber.

Mas enfim, recado dado, queria muito que as empresas olhassem mais para as etapas iniciais da sustentabilidade que são as mais importantes. Entra ano, sai ano, a gente sempre continua nessa enrolação me engana que eu gosto. Acontece que estamos na transição da era industrial para a era do conhecimento e a sustentabilidade corporativa, assim como todo modelo mental das pessoas vai mudar. Novas formas de consumo, de produção, de uso das coisas.

Só que a verdade é que na beira de 2020, a gente ainda capenga na sustentabilidade que era para ser do século passado. Como já disse nesse mesmo texto sobre a década perdida da sustentabilidade, a gente não só não fez o que tinha de fazer, como regredimos.

Mas como não costumo desistir no meio do caminho e muito menos me entregar ao que é mais fácil, proponho: que tal pararmos de pensar um pouquinho em relatórios, em projetinhos sociais de escolinha de futebol e coisas do tipo e começarmos a praticar sustentabilidade corporativa de gente grande?

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Empreendedorismo social x empreendedorismo sustentável


Falar de empreendedorismo ou negócio social já não é algo estranho para o público médio. O tema é recorrente em publicações, na TV, nas universidades, nas redes sociais... já tem até curso sobre isso e até mesmo hackathons. Apesar de ser tema recorrente, não raro, as pessoas confundem empreendedorismo social e empreendedorismo sustentável. Acontece que, mesmo sendo temas bem interligados, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

Há alguns anos, quando o chamado empreendedorismo social começava a despontar, ele, sequer, tinha esse nome. Era chamado de setor dois e meio ou quatro setor. Inclusive, a quem interessar possa, tem um texto que escrevi sobre isso há quase sete anos. Segue o link: http://www.sustentabilidadecorporativa.com/2011/05/sustentabilidade-e-o-quarto-setor-ou-o.html.

Apesar de extrema importância, confesso que vejo muito nos dias de hoje uma glamourização, uma goumertização e uma modinha por negócios sociais. Afinal, é bonito, a gente ganha um quinhão no céu e ninguém tem coragem de chamar empreendedor social de opressor da massa trabalhadora. Enfim, não entrarei muito na questão filosófica que cerca os negócios sociais, mas o fato é que tem muita gente acha que isso é sustentabilidade. Não, não é. Ou melhor, não necessariamente.

Grosso modo, os negócios sociais são um setor onde as organizações possuem fins lucrativos, mas atuam voltadas para uma causa específica. É atuando nessa causa que entra o conceito de geração de valor, que o povo adora, mas frisando que gerar valor não é exclusivo de negócios sociais (mas isso é papo para outro post).

Por exemplo: uma organização voltada para alimentação saudável que trabalha no desenvolvimento de cooperativas de agricultura orgânica. Uma empresa que trabalha com produtos ou soluções voltadas para o empoderamento feminino. Uma empresa que ajuda a melhorar as habitações em regiões da periferia das cidades.

Para quem tem interesse em negócios sociais, um bom lugar para começar a se inteirar sobre o assunto é o Social Good Brasil, uma organização cujo propósito é disseminar e incentivar o uso das novas tecnologias e mídias sociais para enfrentar os grandes problemas mundiais.

Outro lugar bem bacana é o Yunus Negócios Sociais, que é a unidade brasileira da Yunus Social Business Global Initiative. A YNS tem como objetivo desenvolver negócios sociais pelo país através de seu fundo de investimentos e aceleradora para negócios sociais.

Mas Julianna, se isso não é empreendedorismo sustentável, é o que então? É negócio social, ué. Volte ao quinto parágrafo e leia novamente a definição.

Vamos lá, meu jovem, uma coisa que é legal saber: todo empreendimento social é, potencialmente, um empreendimento sustentável. Nem todo empreendimento sustentável é um empreendimento social.
Quando falamos de empreendedorismo sustentável, não estamos falando das causas que motivam as empresas a surgirem, nem dos problemas socioambientais que elas querem resolver, mas de como a sustentabilidade atua no modelo de gestão de uma empresa, nos processos operacionais, nos processos de negócio, no planejamento estratégico, no produto.

Por exemplo: uma pessoa que resolve abrir uma empresa de entregas que só funciona com bicicletas, é um empreendimento sustentável sem ser um negócio social. Ou um restaurante que só utiliza legumes, verduras e frutas de agricultura familiar. Ou uma empresa que utiliza a economia circular para gerar menos resíduo em sua produção.

Lembrando que não basta uma ação ou um processo específico para o empreendimento ser sustentável. É preciso que a sustentabilidade esteja inserida dentro de uma visão sistêmica e integrada à gestão.

E lembrando, também, que atuando ou não em uma causa, seja um negócio que vai transformar o mundo ou apenas mais um negócio no bairro, o empreendedorismo social e o empreendedorismo sustentável são fundamentais para o bom funcionamento de qualquer sociedade.

segunda-feira, 23 de abril de 2018

A crise econômica e a crise da sustentabilidade nas empresas

O mundo passou por uma grave crise de 2008 até mais ou menos 2012, 2013. É claro que isso resvalou nas empresas brasileiras, mas a nossa crisona mesmo começou em 2014. Somado a isso, tivemos uma gangorra no preço do barril do petróleo e no preço do minério de ferro. Sendo o Brasil um país, fundamentalmente, de commodities, essa montanha russa pegou a gente de jeito. Sem contar a crise política e de valores que vai nos assombrar por um bom tempo.

Mas o que vem acontecendo na área de sustentabilidade das empresas não é apenas reflexo da crise mundial, da crise nacional e muito menos culpa do petróleo e do minério. Diria que é resultado de um processo de desaprendizado. Não estou falando isso com base em achismo. Eu venho sentindo na pele há uns bons anos. Nunca houve tantas contratações de profissionais da área pelas empresas e tantas portas abertas para consultorias de sustentabilidade como os anos de 2011 e 2012 e um pouco em 2013. Só que de meados de 2013 o sinal ficou amarelo. E não, não era a nossa crise.

Nos anos de ouro da sustentabilidade corporativa brasileira, o que mais me empolgou foi ver a possibilidade de as empresas fazerem menos projetinhos reativos e mais ações alinhadas às estratégias de negócios. A galera sangue nos olhos que eu tive oportunidade de conhecer e me relacionar tinha autonomia para fazer algo muito além do basicão da responsabilidade social e ambiental.

Mas aí o veio o tsunami. Quem se lembra da EBX anunciando o fim da área de sustentabilidade em pleno 05 de junho de 2013? Para quem não está associando datas, 05 de junho é o dia mundial do meio ambiente. E os passaralhos da Vale que acontecem todos os anos e deram fim às áreas que tratavam de questões relacionadas à inteligência para sustentabilidade? Sustentabilidade que hoje, para a Vale, é basicamente obrigatoriedades legais e GRI. Se bem que às vezes nem as obrigatoriedades legais são cumpridas, né, Mariana?

Outras empresas também demitiram pesado, outras diminuíram a influência da área de sustentabilidade e muitas, muitas, voltaram para o basicão de sempre. É muito frustrante! Isso sem falar no mercado de consultoria (consultoria no sentido real da palavra), que está completamente estagnado, a menos que você se sujeite a projetinhos sociais, ambientais e de relacionamento com comunidades. Ou seja, requisitos legais. Fico aqui confabulando com meus botões se o boom que teve anos atrás não foi apenas oba oba de Rio+20.

E aí eu me pergunto o que, de fato, aconteceu e está acontecendo com a sustentabilidade corporativa brasileira. Falar que a culpa é da crise e da queda das commodities é ser simplista demais. Volto à questão do desaprendizado dos últimos anos. Ou vou mais fundo: do próprio aprendizado.

Uma vez estava em mais um evento me engana que eu gosto (sou para-raio disso, só pode!) e tinha uma pessoa de sustentabilidade da Sabesp apresentando um projeto da área. O projeto era muito bom e eu fiquei interessada por ele. Como queria saber mais dados, perguntei o quanto a empresa tinha deixado de gastar e o que o projeto significava em termos de melhoria de negócio.

Mermão, eu devo ter xingado a mãe da pessoa, porque a reação dela foi como se eu tivesse ofendido alguém. E o pior ainda foi a resposta que tive: não medimos isso porque não é prioridade. A gente tem de fazer e então a gente faz. Juro que ela falou assim.

Você ficou horrorizado com isso, assim como eu fiquei? Vou dar uma notícia ruim: não se engane não, é como funciona a área de sustentabilidade na maioria esmagadora das empresas. Sim, falta muito entendimento das empresas sobre o é sustentabilidade de verdade, mas também falta nessa área muita gente com entendimento de negócios, com entendimento de planejamento estratégico, com atuação atrelada a indicadores, a monitoramento e controle, à análise de retorno.

Aí, quando uma empresa passa por problemas graves, quando a crise bate na porta e vem o financeiro fazendo um monte de corte, adivinhem onde eles vão reduzir gasto? Em áreas que não geram dinheiro, mas apenas reputação, ou que existem porque é o que a empresa tem de fazer. Tipo a área de sustentabilidade, sabe?

Então me pergunto: de quem é a culpa? Sim, a culpa é dos cabeças das empresas que têm visão tacanha a respeito da sustentabilidade. Também. E quanto a isso pouco pode ser feito em curto prazo, a não ser educar, educar, educar ou rezar para eles serem demitidos e entrar gente com visão boa pra isso no lugar. Mas tem outra parcela de culpa que é da própria área. Área esta que, na maioria das vezes, se comporta como se a sua obrigação fosse mudar o mundo pura e simplesmente.

Não sei se perceberam ou se eu deixei isso claro, mas sou uma pessoa que curte demais visão sistêmica e diversidade de experiências. Sustentabilidade permite atuar dessa forma e eu amo isso. É o cara de biologia, é o cientista social, o engenheiro ambiental, a pessoa de comunicação, a psicóloga, o assistente social... tudo junto e misturado e isso é sensacional. Mas mais que pessoas técnicas e com vontade de mudar o mundo, a área precisa de gente de business que queira aliar sustentabilidade a negócios para mudar a empresa e o seu entorno.

E aí não falo que a área necessariamente precisa de um administrador, um economista ou um engenheiro de produção. Mas necessariamente a área precisa que o cara biologia, o cientista social, o engenheiro ambiental e blá blá blá entenda a relação do seu trabalho com o negócio, que veja como pode dar retorno sobre o investimento, como a sua atuação está integrada ao planejamento estratégico e como o impacto que ela gera pode beneficiar a empresa.

Porque enquanto a sustentabilidade corporativa mantiver essa aura de pessoas felizes + somos amiga da natureza e não se posicionar como uma área que ajuda a empresa a melhorar o seu negócio, vai ser um dos setores mais suscetíveis a quedas em momentos de crise ou qualquer outra dificuldade. E como efeito cascata, vai contaminar toda a cadeia criada em torno da inteligência para a sustentabilidade, gerando um retrocesso de só se trabalhar respondendo requisitos legais e reputação. E não, isso não vai mudar o mundo.

segunda-feira, 26 de março de 2018

O tempo perdido da sustentabilidade

Ok, não vou negar que muita coisa foi feita e que, sim, houve muita evolução nos últimos dez, quinze anos no quesito sustentabilidade corporativa. Mas também não vou negar que o resultado é infinitamente aquém da expectativa que se tinha a partir do que vinha sendo discutido e proposto nos anos 90 para os 10, 15, 20 anos seguintes.

Não estou falando do esvaziamento da área ocasionado pela crise mundial que assolou o mundo em 2008 ou a crise interna implacável que nos corrói desde 2014. Falo das expectativas criadas para a década de 2000 e que simplesmente não se concretizaram. Não se concretizaram em muito por conta da ilusão do dinheiro fácil criada por bancos de investimento que fizeram roleta russa com alguns dos principais mercados econômicos do mundo e pela falta de vontade das empresas do século XX em mudar a chave do modelo mental para adentrar o novo século.

Mas façamos uma análise crítica da sustentabilidade dentro das empresas nos últimos 15 anos. Não vou negar que tivemos relativa eficiência operacional que gerou relativa redução de consumo de recursos naturais. Digo relativa, pois, como expliquei no artigo sobre o mito da economia circular, melhoramos muito se analisarmos o consumo por unidade de produção. Mas em termos de consumo total, continuamos a tragédia de sempre.

Também não vou negar que tivemos grandes avanços sociais por parte das empresas, mas é inadmissível que em pleno século XXI ainda tenhamos de nos deparar com grandes empresas globais dizendo que a culpa pelo trabalho infantil ou análogo ao escravo é do fornecedor e não delas. E ao contrário do que poderíamos imaginar, esse tipo de escândalo só cresce ao invés de diminuir.

Não vou negar também que o público médio passou a ter muito mais conhecimento de sustentabilidade e que isso é muito bom. Mas também é um perigo, já que as empresas se deram conta de que comunicar a sustentabilidade é bom e muitas vezes se focaram só nisso.

A verdade é que nunca antes na história deste planeta tivemos tanta preocupação com comunicação da sustentabilidade e com os relatórios de sustentabilidade. Muita preocupação. Aliás, nunca se viu um engajamento tão forte como o comprometimento das empresas em ter um relatório para chamar de seu. Mesmo que não tivesse nada interessante para ser reportado.

Pois bem, peguemos os relatórios. Uma vez, num desses eventos me engana que eu gosto sobre relatórios de sustentabilidade, há uns quatro anos, mais ou menos, questionei sobre quando as empresas seriam cobradas por indicadores de sustentabilidade atrelados ao negócio. Tipo, o que significa para uma empresa dizer que consumiu não sei quantos metros cúbicos de água em um ano? 

O quanto aquele recurso natural é crítico para a sua produção e o quanto a escassez de água impacta esse negócio? Qual o histórico de eficiência da empresa neste indicador, sei lá, nos últimos cinco anos? Sabe a resposta que tive de gente ligada à GRI? Esse tipo de análise deveria partir das empresas. Sério isso, GRI? Sério que você é leniente a esse ponto? Qual o seu propósito? Quantidade de relatórios?

Vamos analisar aqui bem criticamente: há quanto tempo existe a GRI? Resposta: 20 anos. Convenhamos que se em 20 anos as empresas não tomaram a iniciativa de reportarem indicadores de sustentabilidade atrelados aos negócios, enquanto não forem cobradas, vai tudo continuar do jeito que está. Não esqueçamos a lindeza que é o relatório da Vale até hoje ou mesmo o que foi o relatório da Samarco em 2014. São as empresas fingindo que fazem, a GRI fingindo que avaliza e a galera fingindo que lê. Ficção pura.

Voltemos ao boom de comunicação da sustentabilidade. Ok, faz parte do processo de amadurecimento ter esse momento. Mas pergunto a vocês: das principais empresas brasileiras ou que atuam no Brasil, quantas delegam, hoje, a sustentabilidade à área de comunicação ou assuntos corporativos?  Posso fazer uma lista praticamente infinita. 

Mas analisemos bem criticamente de novo: qual o propósito da área de comunicação das empresas? Para não me equivocar, busquei na internet várias definições para o setor e para resumir as que encontrei, digo que o objetivo da comunicação corporativa é cuidar da reputação da empresa de forma a obter apoio e influenciar a opinião e comportamento junto às partes interessadas. Ou seja, reputação e imagem junto aos stakeholders.

Absolutamente nada contra esse propósito de comunicação. Mas estou falando de sustentabilidade. E aí pergunto: qual o papel da sustentabilidade quando ela responde para a área de comunicação? Reputação e imagem. Justo. A sustentabilidade também está nessa. Também. E isso é a ponta final de um longo processo.

Antes de chegar no reporte, na reputação, na imagem, tem de fazer. E pra fazer, a sustentabilidade tem de passar pelo planejamento estratégico, pela engenharia, pelas finanças, pela inteligência competitiva, por novos mercados, pela inovação, por novas fontes de receita, por redução de custo e risco etc etc etc. E depois, só depois de a sustentabilidade percorrer todo esse caminho e ser efetivamente aplicada nesse bololô, é que a gente pode pensar no retorno que ela traz de reputação e imagem.

Há anos fala-se das externalidades da sustentabilidade. Repito aqui a minha crítica sobre relatórios de sustentabilidade: o que significa em termos de negócio e em termos de risco, por exemplo, uma Unilever da vida dizer que gasta x litros de água por ano em seus processos produtivos (sabendo que a água é um bem escasso e que não se paga pelo seu consumo)?

O que significa para uma mineradora reportar a supressão vegetal de x km² para botar em operação uma unidade produtiva (e com isso dizimar fauna e flora de uma região)? Alguém tem essa resposta hoje? Porque isso já se discute há mais de 20 anos e a discussão não sai do lugar!

Tentou-se na década passada estabelecer um mercado de crédito de carbono. Não deu certo. Mas acreditem em mim, vão ter de fazer dar certo. Se a produção industrial continuar como ela é hoje, dados da OECD apontam que a temperatura aumentará mais de quatro graus em 2050. Logo ali. A maioria que me lê vai estar viva nessa época. 

Vale lembrar que o Acordo de Paris de 2015 é para fazer com que a temperatura não aumente mais que 2 graus em 2100. Ou seja, aumentando pouco, aumentando muito, o fato é que o planeta já está mais quentinho e ninguém sabe, de fato, o que isso significa em termos sociais, ambientais, econômicos e muito menos empresariais.

A questão é que por mais que na teoria a sustentabilidade corporativa seja linda, que o discurso das empresas e das instituições sejam inspiradores, ela não passará de eterna promessa enquanto não se mudar o modelo mental das pessoas, o modelo mental das empresas e o modelo mental das sociedades. 

Não, o que a maioria das empresas (dizem que) fazem está longe de ser sustentabilidade. Pode ser relacionamento institucional, compensação ambiental, governança corporativa, legitimação social, marketing de causa/social/sustentável, licença para operar... nada mais que uma reação às demandas de empresas com modelo mental do século XX. Mas já passou da hora de virar a chave para o novo século. 2020 é amanhã de manhã.

P.S. Galera, no dia 14/04 em São Paulo, estarei conduzindo um workshop sobre mapeamento e gestão de stakeholders. Ele é bem legal e cheio de atividades práticas. Mais informações sobre conteúdo e inscrições: para contato@sustentai.com ou acessando o link: https://goo.gl/ueup7s. E quem estiver inscrito na palestra, terá desconto especial!


Julianna Antunes é consultora de sustentabilidade, palestrante, professora universitária e finalista de vários prêmios e concursos de sustentabilidade, tendo sido vencedora do Smart Living Challenge, cujo projeto foi apresentado na COP-21, em Paris. Faz mestrado em engenharia de produção na COPPE/UFRJ, com pesquisa voltada para inovação em modelos de negócio para o setor de petróleo e gás. É também criadora do Sustentaí, um projeto de democratização do conhecimento da sustentabilidade.

sexta-feira, 23 de março de 2018

Palestra Sustentabilidade, Inovação e Empreendedorismo / SP

Quem é de São Paulo e quer assistir a uma palestra muuuuuuuuuuuuito legal sobre Sustentabilidade, Inovação e Empreendedorismo levanta o dedo! o/


Com o apoio da ABRAPS, finalmente consegui levar a minha palestra favorita para a capital paulistana. Ela vai acontecer dia 12/04, às 19h num lugar muito, muito bacana, o Vila Butantan. E sabe o que é melhor? Ela é GRATUITA!

A divulgação começou ontem e as vagas já foram quase todas preenchidas! Então quem quem quiser participar tem de se inscrever logo! Link para inscrição: https://goo.gl/xBQMZc

Descrição da palestra:

Sustentabilidade, inovação e empreendedorismo” trata do presente e do futuro, provocando os espectadores a pensarem de forma sistêmica. A palestra busca mostrar como a inovação e a sustentabilidade vêm impulsionando o surgimento dos negócios do século XXI e como as velhas empresas terão de se adaptar para atuar em um cenário de mudanças climáticas e restrição de recursos naturais.

Os principais temas abordados são: gestão estratégica sustentável; como as empresas e os profissionais vão se encaixar em um novo modelo de mundo; sustentabilidade e inovação; e sustentabilidade disruptiva e oportunidades de empreendedorismo sustentável

P.S. Galera, no dia 14/04 em São Paulo, estarei conduzindo um workshop sobre mapeamento e gestão de stakeholders. Ele é bem legal e cheio de atividades práticas. Mais informações sobre conteúdo e inscrições: para contato@sustentai.com ou acessando o link: https://goo.gl/ueup7s. E atenção, o preço promocional foi estendido até o dia 25/03! Aproveitem!