E se a diretoria de sustentabilidade tivesse o mesmo poder de decisão da diretoria financeira?

O que poderia acontecer de diferente se a área de sustentabilidade tivesse algum poder de decisão?

A importância do olhar estratégico nos investimentos sociais

Como gerar valor para a empresa por meio da responsabilidade social?

Programa de palestras de sustentabilidade - 2019

Conheça o programa de palestras gratuitas de sustentabilidade

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

E se a diretoria de sustentabilidade tivesse o mesmo poder de decisão da diretoria financeira?

Nos últimos nove anos o mundo presenciou três grandes tragédias ambientais causadas por grandes empresas de hard commodities. Duas dessas tragédias aconteceram no Brasil. Em pouco mais de três anos. Diversas razões podem ser apontadas para as três tragédias. Mas no final das contas, tudo gira em torno basicamente da mesma coisa: dinheiro. Vamos pensar aqui: o que é uma commodity? Como a pesquisa que faço para o mestrado é sobre petróleo e gás, que é uma commodity, fui buscar lá na minha dissertação uma definição bem simples do termo:

“É um recurso que se encontra em seu estado bruto ou com baixo valor agregado e nenhum ou baixo processo de industrialização”. Ou seja, é o modelo de produção mais básico que tem. Uma de suas principais características é que elas geralmente têm preços controlados globalmente. E eu falei de hard commodity porque diz respeito à extração (petróleo e mineração), ao contrário da commodity leve, que diz respeito à agricultura e pecuária.

Pois bem, introdução feita, voltemos ao primeiro parágrafo, onde cito que nos últimos nove anos o mundo presenciou três grandes desastres ambientais. No caso falo do desastre no Golfo do México, ocasionado pela BP, o rompimento da barragem em Mariana, ocasionada pela Samarco e o rompimento da barragem em Brumadinho, ocasionada pela Vale.  

Por serem empresas com produtos de baixo valor agregado e preços controlados, o setor de commodities é muito sensível às questões financeiras. Além do show me the money natural de qualquer empresa que vise o lucro, pela natureza da operação, as (hard) commodities também são muito impactantes nas questões sociais e ambientais.

Analisemos o caso da mineração. Hoje o maior comprador de minério é a China. Assim como o Brasil, a Austrália é uma grande produtora de minério. E geograficamente ela fica muito mais perto da China que o Brasil. Levando-se em consideração que as empresas do setor não controlam o preço do produto, vocês hão de convir que os custos do minério na Austrália são menores que no Brasil. Aí entra o diretor financeiro, o tal do CFO, na jogada. Porque meus queridos, o preço de produção precisa ser competitivo.

E aí as empresas começam a pensar onde podem enxugar despesas. A primeira questão é que nenhuma empresa contabiliza as externalidades sociais e ambientais. Não estou falando dos custos diretos para responder condicionantes de licenciamento ambiental, por exemplo, mas os indiretos.

Tipo, uma empresa de mineração, vira e mexe, faz supressão vegetal em morros para extrair minério de lá. Dentro do projeto de licenciamento dela, pode ter até a compensação, que geralmente é a criação de um viveiro de mudas e um planejamento de reflorestamento em algum lugar. Mas o que significa aquele local específico perder flora e consequentemente fauna, sabendo que a gente vive em um ecossistema onde tudo está interligado? Essa é a questão um que empresa alguma contabiliza. Isso é externalidade.

Vamos para a questão dois. Essa é a mais delicada porque é uma linha muito tênue entre ética e negócios. Não vou citar como exemplo o caso da Vale porque ainda é muito recente e ainda falta muita informação ser apurada. Mas voltemos a 2010, com o derramamento de óleo da Deepwater Horizon, que operava para a BP.

A BP durante muito tempo fez lobby no congresso americano para não precisar ter como item obrigatório um equipamento de segurança que custava 500 mil dólares. Ela alegou que se tivesse de gastar esse valor em todas as plataformas, a operação seria inviável. Uma empresa que tinha valor de mercado de 100 bilhões de dólares não queria gastar 500 mil dólares com equipamento de segurança para as plataformas.

Fui lá no site do investing.com e tirei a média do preço do barril de petróleo no mês em que ocorreu o desastre (abril/2010): 85,75 USD. Um preço muito bom, dado todo o contexto macroeconômico da época. Para vocês terem ideia, a média do mês passado foi 60,24 USD. Isso porque o preço está subindo. Em janeiro de 2016 o barril chegou a 27,10 USD, o menor patamar desde novembro de 2003.

O que eu quero dizer com isso? Se com o barril a 85,75 dólares a BP abriu mão de investir em segurança e meio ambiente, o que será que as empresas de petróleo não deixaram de fazer a mando do top top das finanças, quando o barril foi pro ralo chegando a custar pouco mais de 27 dólares? Aí eu pergunto: qual o papel do diretor de sustentabilidade numa hora dessas? Fazer o que é certo, peitar quem tiver de peitar e colocar o emprego na reta, fazer a egípcia ou ele, sequer, é consultado na tomada de decisão crítica da empresa?

Pela experiência que eu tenho, tendo a acreditar na terceira opção. E isso dói pra cacete. Tô pra ver um CSO, diretor de sustentabilidade, head de sustentabilidade ou qualquer whatever de sustentabilidade ter voz em qualquer decisão estratégica da empresa.  Poucos são os que respondem para a presidência. Não raro eles ficam naquele guarda-chuva que junta, segurança, recursos humanos e qualquer outra área cujo diretor jamais vai chegar a presidente.

Pois bem, foquei aqui na lógica de funcionamento de uma empresa de commodities e como ela é influenciada pela área financeira, por mais que gere altíssimos impactos sociais e ambientais. Mas não se iludam, setores menos voláteis também fazem isso aos montes.

Quem aqui é do Rio e se lembra da ThyssenKrupp/CSA, atual Ternium, que para reduzir custos de obra da usina, entregou a construção para uma empresa chinesa, que para economizar, simplesmente deixou de colocar um filtro que casou problemas respiratórios na comunidade que vivia no entorno? O custo disso? Várias multas não pagas e a construção de uma escola sustentável na região como cala a boca. Então eu pergunto: onde estava o/a diretor/a de sustentabilidade nessas horas? Aliás, existia essa pessoa na hierarquia da empresa?

E aí a questão crítica é o que poderia acontecer nesses e em vários outros casos, se a pessoa responsável pela área de sustentabilidade da empresa tivesse o mesmo poder decisório do cara que manda no dinheiro? Aliás, o que ainda vai acontecer porque a pessoa responsável pela sustentabilidade das empresas não tem poder de decisão?



segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

A importância do olhar estratégico nos investimentos sociais

Quem é do mundinho da responsabilidade social está mais do que familiarizado com a sigla ISE, que neste caso não é a do Índice de Sustentabilidade Empresarial da B3 (antiga Bovespa), mas a de investimento social empresarial. Ou investimento social privado (ISP), como também é comumente chamado.

Mas Julianna, o que é esse tal de ISE da responsabilidade social? Indo lá no site do ISE (o da B3 mesmo), vi uma definição bacana:

“Os recursos privados que são voluntariamente repassados a uma causa, de forma planejada, monitorada e sistemática para projetos sociais, ambientais e culturais de interesse público são chamados de Investimento Social Privado (ISP) empresarial. O ISP inclui doações filantrópicas feitas pelas companhias, apoio a projetos de organizações sem fins lucrativos e também projetos próprios que tenham como objetivo gerar benefício público”.

Traduzindo, isso seria a grana que a empresa disponibiliza anualmente para financiar projetos seus e/ou de terceiros que têm pegada social, ambiental ou cultural. Bonitinho, não? Pois é, mas acontece que tem um componente crítico nesse financiamento de projetos aí que envolve tomada de decisão. Vamos pensar: o que leva uma empresa escolher financiar determinados projetos?

Geralmente essa definição de onde aportar o dinheiro tem a ver com a causa que a empresa escolhe abraçar. Educação por exemplo. Empreendedorismo. Cultura, esportes. Enfim os temas são diversos e isso é definido pela área da que trata diretamente do ISE da empresa, seja sozinha ou com respaldo de alguma hierarquia superior.

Mas a dúvida que paira no ar é: o que leva a empresa a escolher tal causa? Não sou expert no assunto, já que minha passagem pela área de responsabilidade social foi bem breve, mas posso dar os meus pitacos. Da experiência que tive trabalhando na área, a decisão de onde e no que investir era tomada a partir de demanda de stakeholders.

Particularmente eu acho esse modelo bem temerário. Não sei se vocês já tiveram experiência de um dia trabalhar com relacionamento com stakeholders, mas o negócio é intenso e as demandas são com base no que o público de relacionamento quer, não no que efetivamente é importante para a empresa.

Tirando essa minha experiência particular, por observação, vejo muita empresa que não tem critério algum ao definir a causa que apoia. Muitas trabalham com cultura e esporte. Pergunto: qual o propósito de utilizar a cultura como causa? Sei lá. Deve ser porque é bonito e pega super bem com a sociedade civil dizer que apoia projetos relacionados à cultura. Ponto. Só que convenhamos, isso não passa de filantropia, né?

Não vejo problema algum em fazer filantropia. Fazer o bem, seja ele da forma que for, é válido. A questão é que dinheiro é um treco escasso. Ainda mais se estivermos falando de dinheiro corporativo. E a crise pela qual o Brasil vem passando nos últimos quatro, cinco anos está aí para provar o meu ponto. Ô área que sofreu, essa de responsabilidade social, viu! E quando digo isso, falo também da área que na empresa é chamada de sustentabilidade, mas que na rotina do dia a dia faz puramente RSE.

Na minha opinião, quando o dinheiro é escasso, mais do que a simples filantropia, a tomada de decisão sobre a grana deve ser estratégica. Tipo, a causa apoiada tem de estar diretamente ligada à geração de valor para a empresa. Porque senão é o que vai acontecer sempre, o cinto aperta, o dinheiro some e todo mundo fica chupando dedo. Inclusive o analista da área que, provavelmente, vai perder o emprego.

Julianna, você fica falando, falando, falando, metendo o pau no que vê por aí, mas, como escolher a causa certa para investir o escasso dinheirinho corporativo?

Obviamente essa resposta não tem fórmula certa, mas minha recomendação é pensar na dor social da empresa. Tipo, o que do ponto de vista social pode impactar a estratégia do seu negócio lá na frente se você não adotar a causa hoje? Que tema social é crítico para a sua estratégia nos próximos cinco, dez anos?

Sempre que toco nesse tema de investimento social estratégico, dois exemplos me vêm à mente porque são empresas que entenderam perfeitamente o conceito de dor social. Um exemplo é o do Instituto Souza Cruz, que há mais de década tem como causa o empreendedorismo jovem. As diretrizes do programa podem até mudar de tempos em tempos, o alcance ser alterado, mas há uns quinze anos ou mais a Souza Cruz investe o seu dinheiro social na formação de jovens empreendedores. E por que isso?

Para quem não sabe, o modelo de negócios da Souza Cruz não é plantar fumo. Ela compra a produção de agricultores de pequenos municípios da região sul do Brasil. Uma das principais características desse tipo de agricultura é que ela é fundamentalmente familiar. Lá atrás, bem no início da criação do Instituto, a Souza Cruz identificou que uma de suas principais dores sociais é que por falta de atratividade nas pequenas cidades, esse jovem filho do fumicultor acabava saindo para buscar melhores oportunidades nas cidades maiores e não costumava voltar.

Só que tendo como peça chave do seu negócio a compra do fumo plantado pelo pequeno agricultor, a Souza Cruz entendeu que se ela não investisse em ações para reter esse jovem na cidade dele, lá na frente, num futuro bem futuro, o negócio dela poderia ficar comprometido. No momento que ela entendeu isso, a causa do Instituo passou a ser, justamente, o desenvolvimento de jovens empreendedores. Quando eu estava na Souza, o escopo era a região sul do Brasil. Pelo que vi agora, o programa foi ampliado para onde a Souza Cruz tem unidades de negócio, mas a lógica permanece a mesma.

O outro exemplo é de uma empresa que eu não lembro o nome, mas acho que era tipo recrutamento e seleção de profissionais de petróleo e gás. Se não for, era alguma empresa de óleo e gás. O que importa é a raciocínio utilizado para definir a causa. Pois bem, quem aqui lembra das vacas gordas, quando o Brasil era o cara e o nosso desemprego era mínimo? E quem lembra do apagão de engenheiros que a gente teve nessa época?

Então, essa empresa que eu não lembro o nome identificou que escassez de recursos humanos era uma dor social  dela e do setor de petróleo. Além de perceber que a tendência era piorar, viu que grande parte do problema da falta de engenheiros no mercado tinha a ver com dificuldade das pessoas com o estudo de exatas. A partir daí, qual foi a causa que ela adotou para investimento social ESTRATÉGICO? Reforço de matemática nas escolas de ensino fundamental! Não é lindo?

Pode perecer complicado, mas não tem mistério. Quando a gente passa a pensar no investimento social da empresa como algo que vai além da filantropia, todo mundo ganha. Porque ao resolver uma dor nossa, aquele dinheiro minguado, ralado e pouquinho deixa de ser para fazer algo guti guti em nome da empresa e passa a ganhar contexto estratégico. Sem contar que além de ser bom para a gente, também estamos resolvendo um problema da sociedade. Não raro, de forma mais rápida e efetiva.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Palestras gratuitas de sustentabilidade - Agenda 2019

Desde 2015, meio que numa prévia do que seria o Sustentaí, comecei um projeto de palestras gratuitas por todo o país, cujo objetivo era o de democratizar o conhecimento da sustentabilidade. E é exatamente essa a proposta de valor do Sustentaí, que foi lançado em 2017 e virá totalmente remodelado em 2019.

Palestra de abertura na V Semana de Engenharia da UFAL - Delmiro Gouveia
Com o programa de palestras, tive a oportunidade de viajar para muitos lugares que jamais pensei que um dia fosse conhecer, conheci muitas pessoas interessantíssimas, mas desde o ano passado ele deu uma pivotada. Antigamente o escopo era bem amplo e desde que houvesse match de disponibilidade, qualquer instituição, pública ou privada, poderia solicitar uma das palestras.

Desde o ano passado resolvi reformular não só a grade de palestras disponíveis, como o alcance da gratuidade. Isso aconteceu por uma série de fatores. Tempo foi um deles. O meu tempo é escasso, ainda mais agora em fase final de mestrado. Outra questão é a banalização. Muita gente, diante da facilidade, não entendia o propósito de ter uma palestra dessa na empresa e pedia achando que servia para qualquer situação, para qualquer público.

Então eu dispunha gratuitamente o meu tempo, que é valiosíssimo, para falar para pessoas sobre um assunto super importante, mas em alguns momentos (não todos e nem na maioria das vezes, ainda bem) faltou o mínimo de retorno. Já falei para meia dúzia de pessoas sem interesse algum. Já houve caso, até, em que a empresa queria que eu arcasse com o custo do deslocamento! Oi?

A outra questão, e talvez essa seja a mais emblemática, é que a gente precisa subir o nível do discurso da sustentabilidade a um patamar de seriedade, de responsabilidade e de entendimento de geração de valor. Exatamente como o tema deve ser encarado. Infelizmente o brasileiro acha que o que é de graça é ruim ou tem de ser uma obrigação. Então, colocando um preço nas palestras, ainda que barato, tenho mais segurança de que o assunto não vai ser banalizado e jogado na empresa de qualquer forma para funcionários sem o mínimo de interesse.

Palestra no mês de meio ambiente do CEFET-RJ
Mas calma lá que o programa de palestras gratuitas não acabou e ainda quero garantir o meu quinhão no céu. Nos anos em que ele foi gratuito a todos, o público e os eventos que mais geraram retorno e satisfação pessoal foram os universitários. Por conta disso, o programa de palestras gratuitas desde 2018 é exclusivo para eventos e encontros universitários e de empreendedorismo. Tenho o maior carinho em atender esse público e saiba que o Sustentaí estará sempre de portas abertas a vocês.

As palestras disponíveis para 2019 são:

  • Mudanças climáticas e o quanto isso é da nossa conta
  • ODS 7: energia acessível e limpa
  • O futuro da sustentabilidade num mundo 3.0
  • O que é economia de baixo carbono?          
  • Sustentabilidade no mundo das startups
  • Sustentabilidade, inovação e empreendedorismo
Palestra na 15a. Semana de Engenharia da UFES
Lembrando que as palestras gratuitas não permitem customização. Isso só acontecerá a menos que seja um evento muito específico e que eu tenha tempo para preparar a palestra. Os interessados podem entrar em contato pelo email: sustentabilidade@sustentabilidadecorporativa.com

Para empresas, temos outros temas disponíveis, voltados, principalmente para sustentabilidade a partir da perspectiva de negócios e engajamento da força de trabalho. Alguns temas são:

  • Comportamento sustentável
  • Comunicando a sustentabilidade
  • Engajamento para a sustentabilidade
  • Funcionário sustentável, empresa sustentável
  • O líder sustentável
Há também a possibilidade de criar uma palestra do zero, totalmente customizada. Caso haja interesse em ver a lista completa ou interesse em contratar uma palestra, solicite uma proposta!



segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

O que o relatório de sustentabilidade da Vale diz sobre Brumadinho

Em dezembro de 2014, lembro que a Renner foi acusada de fazer uso de mão de obra análoga à escrava dois dias depois de ser incluída no Índice de Sustentabilidade Empresarial da antiga Bovespa, hoje B3. Na ocasião escrevi um artigo questionando o ISE ter aceito uma empresa com esse passivo (mesmo não sendo a responsável direta). Junto com o questionamento, fui no relatório de sustentabilidade da empresa ver o que ela falava de trabalho escravo. A quem interessar possa, o texto está aqui: https://bit.ly/2WkoXso

Um mês antes, também em 2014, escrevi um artigo cujo tema central era o que os relatórios de sustentabilidade das empresas até então implicadas na Lava Jato falavam sobre corrupção. Em 2015, na época que estourou a barragem de rejeitos de Mariana, fiz a mesma coisa com o relatório de sustentabilidade da Samarco. Aos interessados segue o artigo sobre as empresas da Lava Jato (https://bit.ly/2B3pN3y) e da Samarco (https://bit.ly/2B42E0V).

Meu ponto com esses três artigos é: para que serve, afinal, a porra do relatório? Se tudo está lindo e maravilhoso como todas as empresas reportam, por que acontece tanta merda?  É por causa disso (e de outros horrores) que desde sempre eu tenho pinimba com relatórios. Tipo, não é de hoje, é desde sempre. É desde quando ele era modinha e todas as grandes empresas gastavam rios de dinheiro fazendo uma obra de ficção para chamar de sua.

Pois bem, aproveitando a vibe, peguemos então o último relatório de sustentabilidade da Vale, que é o de 2017, e vejamos o que ela fala de Brumadinho. Das 179 páginas do relatório, temos ZERO, eu disse zero páginas que falam de Brumadinho. Aliás, a palavra, sequer, é mencionada no relatório inteiro. Tentemos Córrego do Feijão: zerinho. Ué... estranho...

Pelo que fui pesquisar na internet, na mina do Córrego do Feijão, a barragem de rejeito que rompeu já não era usada há três anos. Vamos analisar criticamente a informação. Primeiramente, o que são barragens de rejeitos? Grosso modo, é um reservatório que contém a escória do minério. É aquilo que não tem valor econômico no beneficiamento de minério. Apesar de nenhum ou baixo valor econômico, por questões ambientais precisa ser armazenado.

Entendido o conceito, voltemos à informação de que a barragem não era usada pela Vale há três anos. O que ela seria então? Um passivo ambiental? Acho que podemos dizer que sim. Mas tipo, por ser um passivo ainda é responsabilidade da empresa, não? Eu acho que sim. Partindo do princípio que é realmente uma responsabilidade da empresa, por que cargas d’água não há uma linha sequer no relatório de sustentabilidade falando de Brumadinho ou qualquer outra barragem que não é mais utilizada? Esquisito, não?

Então, não satisfeita com esse fato, fui fuxicar o que era falado sobre Mariana no relatório da Vale. Vamos lá. Na busca por palavras chave, Mariana foi citada cinco vezes. Isso mesmo, CINCO VEZES. Considerando que este é o MAIOR DESASTRE AMBIENTAL DO BRASIL, e que tinha ocorrido há pouco mais de um ano (lembrando que o relatório é de 2017), é muito estranho um relatório só falar dele em cinco ocasiões.


Ain, Julianna, mas nesse caso a operadora era a Samarco, a Vale era só uma das controladoras. Eu até concordo, mas nem a mídia, nem você deixa de falar de Mariana sem mencionar a Vale. Então, meus caros, não posso fazer nada, mas esse é um peso que a Vale terá de carregar para o resto da vida. Ainda mais agora.

Mas voltando ao relatório, é muito, muito estranho a Vale falar pouco e falar superficialmente de Mariana. Ainda mais porque mesmo já tendo saído alguns bilhões de sua conta, as multas, vêm sendo proteladas desde o início. Até agosto de 2017 (21 meses após o desastre), apenas 1% das multas tinha sido paga. Isso sem contar o débito com as pessoas impactadas, que está longe de estar quitado, aliás, nem faz cosquinha. Inclusive, esse é um ponto absolutamente nevrálgico.


Lembrando que quando a gente fala de indenização, estamos falando de gente. Gente que perdeu gente, gente que perdeu casa, gente que perdeu seu sustento. Então, mesmo que a Vale esteja pagando às duras penas e morrinhando o quanto pode, é completamente imoral ela não ser transparente com a sociedade em relação ao maior desastre ambiental do país. Não, Vale, não é pergunta lá no Posto Ipiranga (vulgo Fundação Renova), não. Cabe a você e à Samarco (que nem publica mais relatório de sustentabilidade) assumirem a responsabilidade de dialogar com a população.


Então, como venho dizendo desde quando fui desbravar a área, relatório de sustentabilidade é obra de ficção científica. Está longe, mas muito longe de relatar o mínimo do que seja a realidade da área de sustentabilidade de uma empresa. E na hora do perrengue, aí mesmo que a gente vê o descolamento do que é realmente feito e da história que é contada.

Não se iludam. Relatório de sustentabilidade continua sendo o trelelê que as empresas não têm coragem de parar de fazer, mas é só isso: trelelê. Ele já deixou há um bom tempo de ser o xodó da galera e fiquem de olho porque a modinha agora é todo mundo ter um ODS para chamar de seu. Inclusive esse último relatório da Vale é todo ligado nos ODSs. Coisa linda de Deus. #SQN.

EDIT: Inspirado nesse post (ele não vai admitir), o Julio Campos se aprofundou e foi ler relatórios anteriores da Vale. No de 2016 ele encontrou o seguinte:


O que isso sugere? No mínimo do mínimo que a Vale foi negligente. Mas hoje é fácil entender o que essa informação significa. Mas solta assim e descontextualizada, ela passa batido pela meia dúzia de gatos pingados que leem relatório de sustentabilidade. Agora imaginem quantas pontas soltas não tem por aí nos milhares de relatórios que as empresas divulgam todos os anos? 

Finalizando, em meados de 2017, na segunda temporada do Sustentaí, cujo tema foi sustentabilidade nas profissões, entrevistei a Bernadete Almeida para falar de como o profissional de comunicação corporativa poderia trabalhar a sustentabilidade. Ela foi gerente de comunicação na Vale por bastante tempo e deu uma aula sobre gestão de crise. Além disso, ela falou do maior pesadelo de uma mineradora, que é, justamente, o rompimento de barragem. Vale a pena assistir:


Ah, criei um grupo de sustentabilidade no whatsAPP, o Sustentabiidade BR_v2 (o 1 já está lotado). Quem quiser participar, basta acessar o link https://bit.ly/2Ri94yO e entrar.



segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

A diversidade que ninguém vê e ninguém quer nas empresas


Hoje está super na moda as empresas falarem de diversidade. Diversidade não só da porta para fora, com produtos voltados para vários tipos de minorias e maior representatividade em campanhas publicitárias, como também diversidade da porta para dentro. Está tão na moda a da porta para dentro, que qualquer empresa grande criou uma área de diversidade para chamar de sua. Oi?

É sério mesmo que precisa ter um/a gerente, um/a analista e um/a estagiário/a de diversidade? Não seria papel da área de recrutamento e seleção identificar as pessoas com perfil diverso sem as barreiras que todo mundo está careca de saber? Não seria papel da área de desenvolvimento organizacional criar uma cultura corporativa orientada para a diversidade? E, mais ainda, trabalhar o engajamento e a gestão da mudança necessária, principalmente a mente dos gestores para não colocar muros e amarras na hora da contratação?

Além de modinha, essa diversidade que todo o mundo corporativo abraçou agora é a diversidade visível e fácil de ser identificada. Quantas mulheres tem na força de trabalho da minha empresa? Quantos negros? Quantos deficientes? Pergunta lá no Posto Ipiranga, ué! Quer dizer, é só puxar o relatório no software de gerenciamento de pessoas.

Mas mais do que puxar relatório, você vê essas pessoas circulando nos corredores das empresas. E isso é altamente estratégico para as empresas porque elas não somente se beneficiam da cultura da diversidade, como elas fazem (E MUITO) marketing em cima disso. Quer dizer, tem empresa que faz mais marketing do que diversidade, mas isso é papo para outro post.

Apesar de eu não achar errado querer capitalizar em cima de boas ações corporativos, sei lá, parece que ao fazer isso a empresa está expondo carne seca no varal. Tipo, não está fazendo mais do que a obrigação, sabe? E mais do que cor, aquelas pessoas estão ali (acredito eu) por mérito. A única diferença é que os filtros utilizados foram outros.

Mesmo achando a diversidade que só agora as empresas parecem ter descoberto algo deveras importante, diria que ela já está mais do que ultrapassada. Sim, atirem pedras, mas diversidade de cor, gênero, orientação sexual, deficiência e afins é algo que a gente já deveria ter trabalhado (e superado) há muito tempo. Tipo, pelo menos uma década atrás. E digo isso porque o mundo muda tão freneticamente, que hoje a gente tem uma nova demanda por diversidade e essa é muito mais complexa de lidar.

Tenho uma visão bem curiosa e, digamos, engraçada sobre a diversidade do futuro. Para mim, a diversidade do século XXI vão ser as grandes empresas do século XX contratando gente maluca. Digo empresas do século passado porque as de agora foram fundadas por malucos e eles são a maioria nos demais cargos.

E o que eu quero dizer com gente maluca?

Gente que tem uma lógica diferente de pensar; que não está nem aí para paradigmas, para regras cristalizadas, para burocracias corporativas, para o top-down. Gente que, realmente, pensa fora da caixa. Mas mais do que isso: é gente que enxerga um palmo à frente, que vai além do óbvio e questiona o status-quo do business as usual. É gente que vê o futuro e sabe que ele é completamente diferente do que vem sendo feito hoje. E sabe também que tem de colocar a mão na massa urgente para que as empresas de ontem não sejam engolidas pelas empresas de amanhã, nativamente malucas.

Se a gente parar para pesar, as empresas deveriam disputar a tapa os malucos, não é mesmo? Na verdade, elas precisam miseravelmente de gente com esse perfil, justamente para se manter perene nas próximas décadas.

Peraí, Julianna, se tem maluco dando sopa por aí e as empresas precisam deles, o mundo é perfeito, não? Qual a pegadinha que eu ainda não entendi?

Pois bem, precisar não significa querer. Quer dizer, o problema não é nem querer. As empresas querem. O problema é o que as empresas fazem com essas pessoas quando elas são contratadas. Imagina o desconforto de funcionários padrão (não encarem isso como algo ruim) vendo o modelo de gestão que eles conhecem e dá muito lucro sendo desconstruído por quem mesmo? Pelos malucos.

O que você, que sempre ganhou prêmios e promoções por sua eficiência, sua eficácia, seus resultados, faria ao ter o seu trabalho questionado por um grupinho que chegou para fazer tudo diferente? Por gente que viaja na maionese e transforma informações abstratas em ações concretas, gente que não tem medo do novo e que adora tentar novas ferramentas, novas abordagens, novas formas de fazer aquilo que ninguém faz?

Não precisa responder não, eu respondo: ao mesmo tempo em que as companhias precisam miseravelmente dos malucos, elas os odeiam. Quer dizer, as pessoas que lá trabalham. O ambiente corporativo para esse tipo de gente é bastante hostil. Não raro, as empresas trazem essas pessoas para dentro e, das duas uma: ou as colocam dentro da caixa ou as relegam a uma garagem de whatever. E tá na moda, viu? Agora toda empresa quer ter uma garagem para chamar de sua.

A verdade é que a diversidade do século XXI é muito mais do que ampliar o espectro de contratação de forma a valorizar cores, gêneros e pesos diversos. A diversidade do futuro está no pensamento. Em se cercar de pessoas que pensam diferente, que fazem as coisas de forma diferente, que questionam e põem em xeque o que vem sendo feito até então. E sabendo lidar com isso, as outras diversidades, as visíveis, as óbvias, as expressas por estatísticas são consequência.

Aí pergunto: como é a sua empresa ao lidar com o pensamento diferente? Ela realmente encara a diferença como valor e estratégia, ou o ambiente para o diverso, para o pensar fora da caixa é hostil? Porque se for, a sua empresa até pode se achar o suprassumo por contratar um "profissional de diversidade" para facilitar a entrada de gente com cabelo black power no ambiente corporativo, mas a verdade é que ela corre o risco de pagar um preço alto lá na frente.