quarta-feira, 8 de abril de 2020

10 TEDs de sustentabilidade para assistir durante a quarentena

Em tempos de quarentena, vejo várias pessoas que podem se dar ao luxo de ficar em casa buscando formas de passar o tempo com qualidade. Pensando nisso, fiz uma lista com 10 TEDs de sustentabilidade que eu curto e resolvi compartilhar.

Não é um top 10 porque nunca parei para pensar nos que eu mais gosto, nem uma lista por ordem de preferência, foram simplesmente 10 TEDs que eu vi, gostei e recomendo.

Todos os vídeos possuem legenda em português. É só configurar.


Winning the oil endgame

Duas palavrinhas já seriam suficientes para eu recomendar esse TED: Amory Lovins. Meu físico amado, autor de dois dos três melhores livros desustentabilidade que eu li, autor do artigo escrito em 1976 sobre o backcasting, o método de análise de cenários que é o ideal para a sustentabilidade corporativa, e um papa da energia limpa. Assistam, ouçam e leiam qualquer coisa desse cara. Vale muito a pena.



Biomimicry in action

Se você pensa em sustentabilidade pela perspectiva de inovação de produtos, a biomimética é um dos, senão o principal caminho. E a Janine Benyus é A pessoa, quando o assunto é esse. Para ela e para qualquer especialista no tema, ninguém precisa reinventar a roda, já que a natureza dá o rumo para a inovação. Exemplos não faltam, como os painéis fotovoltaicos baseado nas folhas, por exemplo, ou a lâmpada de LED inspirada nos vaga-lumes.



The complex path to sustainability

Esse é um TED bem legal e corrobora o que eu sempre falo de que o calcanhar de Aquiles e uma das maiores dificuldades da sustentabilidade corporativa está, justamente, na sua cadeia de fornecedores.



The business logic of sustainability

Ray Anderson, enquanto vivo, foi um dos maiores expoentes da sustentabilidade corporativa. Ele, dono de uma indústria de carpete, mergulhou na sustentabilidade após ser provocado por Amory Lovins e viu seus lucros dobrarem e suas vendas explodirem quando ela, a sustentabilidade, passou a ser condição primária para o seu negócio.



The investment logic for sustainability

Todo mundo aparentemente entende a importância da sustentabilidade em várias instâncias da sociedade. Mas quais grupos, hoje, poderiam realmente fazer a diferença no sentido de mudar a forma como fazemos as coisas? Certamente os investidores é um deles. Este TED mostra o porquê de apenas dados financeiros não serem suficientes numa tomada de decisão de investimento, sendo, também, necessário observar as questões ambientais, sociais e de governança.



Put a value on nature!

O Pavan Sukhdev é um economista indiano e autor de um dos melhores livros de sustentabilidade que já li, o Corporação 2020. Neste TED ele aponta que usamos materiais extraídos do planeta gratuitamente e por isso não temos o cuidado necessário com a natureza. Então ele faz a provocação: e se tivéssemos de pagar, será que teríamos mais responsabilidade com o consumo da água, das árvores e, até mesmo, do ar?



The state of the climate — and what we might do about it

O Nicholas Stern é um economista que fala de sustentabilidade. Isso, por si só, já tem a minha profunda admiração, haja vista que a maioria dos seus colegas segue a linha ortodoxa e encara a questão ambiental como inimiga do desenvolvimento econômico. Mas ele é mais que isso. É um dos maiores expoentes da economia de baixo carbono. E isso, por si só, já tem a minha profunda admiração em dobro.



3 creative ways to fix fashion's waste problem

Em relação à sustentabilidade, a moda é uma das piores cadeias produtivas que tem. Ela apresenta problemas com materiais, já que uma de suas principais matérias primas é o algodão, uma monocultura lotada de agrotóxico, sua força de trabalho, não raro, é altamente degradante, sem contar, o problema abordado neste TED, que são as milhões de peças de roupas que depois de produzidas vão parar em aterros sanitários todos os anos.



5 transformational policies for a prosperous and sustainable world

Você já parou para pensar em como será o futuro daqui a 30, 40 anos? E como construir esse futuro sem destruir o planeta, coisa que fazemos há 300 anos? Eu sou muito a favor do protagonismo das empresas na liderança para a sustentabilidade, mas tenho plena consciência de que o desenvolvimento sustentável passa, antes, por políticas públicas que os países serão, cada vez mais, obrigados a estabelecerem. É sobre 5 possíveis politicas globais e transformacionais que trata este TED.



How to get serious about diversity and inclusion in the workplace

Apesar de há uns dois anos ter virado modinha e toda empresa ter criado um programa de diversidade/inclusão para chamar de seu, a verdade é que tratar do tema não é tão simples como parece. Porque mais do que aumentar a estatística de contratar pessoas “diversas”, o passo 2 é o que conta de verdade. Porque ele vai mexer com o comportamento das pessoas que sempre estiveram lá e tem crenças, valores e até mesmo o tal do racismo estrutural, aquele que a gente faz uso diário e nem se dá conta.


E aí, o que acharam?



terça-feira, 31 de março de 2020

A importância da tecnologia para as cidades sustentáveis

Há alguns anos um conceito bem interessante vem ganhando destaque quando o assunto é planejamento urbano e construção de cidades: as smart cities. Mas o que são as chamadas cidades inteligentes? De acordo com a Comissão Euopeia, são lugares onde redes e serviços tradicionais se tornam mais eficientes a partir do uso de tecnologias digitais e de comunicação, melhorando a qualidade de vida das pessoas. Resumindo, é a presença da tecnologia no funcionamento rotineiro de uma cidade.

Agora vamos dar dois passos atrás e contextualizar o que o mundo projeta como cidade daqui a alguns anos. De acordo com a ONU, o mundo caminhará para quase 10 bilhões de pessoas em 2050. Somado a isso, estima-se que cerca de 6 bilhões dessas pessoas estarão morando em áreas urbanizadas.

Além de um mundo lotado de gente, as projeções globais de urbanização para os próximos 30 anos* apontam para o aumento no número de megalópoles, que são as megas cidades. Hoje temos algumas gigantescas, como, por exemplo, Tóquio, Nova Déli, Shangai, Cidade do México e São Paulo, com mais de 20 milhões de pessoas vivendo no entorno da região. Além delas há outras, como Cairo, Mumbai e Pequim, se aproximando dessa marca.

Para daqui a 10 anos, as Nações Unidas apontam a existência de 43 mega cidades com mais de 10 milhões de pessoas, a maioria esmagadora em países em desenvolvimento. Isso sem contar as regiões que rapidamente passarão pelo processo de urbanização e terão, num piscar de olhos, mais de um milhão de habitantes.

Vocês conseguem imaginar não só a gestão, mas, principalmente, a operação dessas cidades sem o uso da tecnologia? Imagina a infraestrutura necessária para dar conta de tanta gente circulando em espaços cada vez mais escassos e demandando cada vez mais de subsistemas como água, energia, transporte, gestão de resíduos e afins?

Mas aí pergunto a vocês, o que a sustentabilidade tem a ver com as smart cities?

Peguemos novamente o conceito de cidades inteligentes lá da Comissão Europeia: “lugares onde redes e serviços tradicionais se tornam mais eficientes a partir do uso de tecnologias”.

A primeira questão que a gente tem de pensar quando fala do aumento de regiões urbanizadas e, principalmente, do aumento populacional nessas regiões, é que o espaço não vai aumentar. Ele é limitado e por isso terá de ser utilizado com a máxima verticalidade e eficiência. A segunda questão é que alguns recursos naturais também são limitados, como a água, por exemplo, e até mesmo a energia, que depende do smart grid (redes inteligentes) para tornar viável a micro e mini geração limpa e renovável.

Assim, é completamente impensável uma cidade dos próximos 30 anos sem a presença da tecnologia. E quando colocamos a tecnologia como ferramenta para redes e serviços mais eficientes, estamos naturalmente falando de sustentabilidade. Imagina o quanto de água não é desperdiçada diariamente com vazamentos pelas cidades, por exemplo? O quão mais rápida pode ser a resposta a esse desperdício se houver a instalação de sensores nos canos?

Será que poderemos abrir mão da energia vindo das termos a partir do momento em que a tecnologia resolver o problema da intermitência das renováveis? Ou então quantos prejuízos podem ser evitados com o uso da tecnologia para a prevenção de enchentes ou impedimento de alagamentos?

Somado a isso, tem ainda, para mim, o principal desafio do urbanismo nas próximas décadas e que é o coração das cidades sustentáveis: mobilidade. Como dar acesso e fazer circular de forma eficiente uma cidade com 20, 30 milhões de pessoas? Como reduzir as emissões de CO2 e a poluição gerada pelo transporte nas cidades? Como melhorar a qualidade de vida das pessoas que precisam se deslocar diariamente por muitos quilômetros por transporte público? Como reduzir o tempo das pessoas no trânsito?

Do ponto de vista de planejamento de transporte, a gente tem de pensar que hoje, em grandes cidades, transportes de média capacidade (ônibus, fundamentalmente) já não dá conta. Transporte de alta capacidade, como metrô e trem, são as principais alternativas, mas são obras caras e lentas. VLTs são mais rápidas e mais baratas, mas o processo de construção impacta absurdamente as regiões com obras. Transporte individual motorizado, ainda que por meio de carros elétricos, só são opção caso a proposta seja ecoengarrafamentos.

Nesse contexto, refaço a pergunta-chave: qual a melhor solução para a mobilidade sustentável em cidades cada vez mais populosas e com menos espaços disponíveis? Para mim, a nada expert em urbanismo, engenharia civil e smart grid, seria um pool de ações que envolveriam integração de transporte público com transporte não motorizado, redesenho de bairros, criação de novas centralidades, desenho de novos fluxos para picos de circulação e muito, muito planejamento urbano.

Em muitas ações de mobilidade urbana sustentável a tecnologia bit byte será fundamental. Em outras, basta o uso da tecnologia social e visão estratégica. E vocês, o que acham? Como as smart cities podem auxiliar a sustentabilidade nas cidades e vice-versa?

Para quem ainda não sabe, no último dia 19/03 lançamos o SustentaíCast, um podcast semanal sobre sustentabilidade nas empresas. Vai ao ar todas às quintas à noite e já tem dois episódios disponíveis: https://linktr.ee/sustentaicast

 * Dados de 2018.


quarta-feira, 25 de março de 2020

Você sabe o que é cultura de sustentabilidade?

Antes de responder a pergunta, já digo de antemão que essa expressão, sequer, existe. Na verdade, eu me apropriei do conceito que vem da área de segurança do trabalho e ajustei para o contexto da sustentabilidade. 

Mas enfim, o que seria cultura da sustentabilidade?

Pegando ainda a definição de segurança e a adaptando, seria um conjunto de práticas e atitudes compartilhadas com os colaboradores de uma empresa com o objetivo de tornar essa empresa sustentável. Quando digo conjunto de práticas e atitudes, eu estou indo além do óbvio visível, de ação no dia a dia, mas incorporar a cultura da sustentabilidade à estratégia e tomada de decisão.

E é justamente aí, neste ponto, que o olhar da cultura da sustentabilidade mais se difere da cultura da segurança. Para começo, a cultura de segurança é tangível. Você consegue comparar ano a ano a escalada a partir da quantidade de acidentes, horas de afastamento, óbitos, perdas financeiras...

A sustentabilidade que vai muito além de legislação ou mesmo gestão ambiental, a que tem viés holístico e sistêmico, essa sustentabilidade é, absolutamente intangível, apesar de se ter alguns mecanismos de medição. A questão é que ela é muito mais voltada para a geração de valor, por isso é tão complexo medir o quanto uma empresa está ampliando ou amadurecendo essa cultura.

Além disso, a sustentabilidade é fundamentada em uma relação de causa e efeito que não é nada direta. Tipo, o que significa uma empresa que deixou de emitir não sei quantas mil toneladas de CO2 ou deixou de poluir um curso hídrico do seu entorno? O quanto a ação de uma empresa valorizou por ela ser sustentável ou o quanto o mercado a enxerga como mais confiável por ela ser, efetivamente, uma empresa sustentável?

Acontece que ter esse tipo de questionamento e obter as respostas não são a porta de entrada da cultura da sustentabilidade numa empresa. Pelo contrário, para mim é a ponta final de um processo longo e repetitivo. E se uma empresa está pronta para esse nível de sofisticação, significa que ela passou pelo maior desafio da cultura da sustentabilidade, que é o de engajamento.

Na verdade, o engajamento é o ponto crítico para o desenvolvimento de qualquer cultura organizacional. Seja sustentabilidade, segurança, inovação, diversidade, o que for. Não se esqueçam disso: ENGAJAMENTO. E o maior dos problemas é que muita gente, muito RH, insiste que para ter colaboradores engajados basta montar um programa de treinamento e aplicaá-lo pra todo mundo da mesma forma.

Hum... creio que não. Não mesmo.

Quando a gente fala de engajamento, as razões que levam uma pessoa a ser engajada são absolutamente pessoais. É de dentro para fora. Independente da área em que ela trabalha ou o nível hierárquico que ela ocupa. O engajamento é único. Colocar numa sala 40 pessoas com diferentes motivações, diferentes perspectivas, diferentes entendimentos e padronizar a informação passada é um belo convite para o nada. Tempo e dinheiro jogado fora. E convenhamos, olhem o orçamento que a área de treinamento tem e façam o ROI disso. Duvido que a conta feche!

Enfim, entender o perfil dos colaboradores, como eles absorvem conhecimento, a percepção que eles têm para a sustentabilidade e como se relacionam com ela no dia-a-dia é chave para o desenvolvimento dessa cultura na empresa. Não adianta simplesmente achar que criar um EaD, colocar o presidente para falar, escrever sustentabilidade na missão e nos valores e, até, inclui-la nas metas anuais vão transformar uma massa de colaboradores em pessoas engajadas. Não vai. E de novo, vai ser só tempo e dinheiro jogados fora.


quarta-feira, 18 de março de 2020

O papel da inovação e da sustentabilidade nas empresas

Quando se fala em inovação, a gente pode analisar por diversos ângulos. O da melhoria de processos, de novos produtos, novos modelos de negócios, ou mesmo uma grande disrupção, que abraça tudo junto ao mesmo tempo, com uma pitada de caos e certa destruição de mercado.

O que tenho visto ao longo dos anos é que a inovação é uma das maiores aliadas da sustentabilidade corporativa e vice-versa. Pelo menos deveria ser. Digo isso porque na minha visão, e acredito que de várias pessoas, não faz sentido algum uma empresa pensar na inovação isolada da sustentabilidade.

Peguemos a melhoria de processos, por exemplo. Neste caso falo de buscar formas de redução de consumo de materiais, recursos naturais, redução de desperdício, de falhas, de custos, novos processos que geram menos resíduos... Por essa perspectiva digo que a engenharia de produção é a engenharia da sustentabilidade (ok, do século XX, mas isso é outro papo), já que uma das premissas de atuação dela é, justamente, a busca pela eficiência das operações.

Lean manufacturing, six sigma, qualidade total... tudo isso tem como pano de fundo a sustentabilidade, ainda que ela não seja o objetivo principal.  Aliás, a quem interessar possa, na temporada do Sustentaí sobre sustentabilidade nas profissões, tem um vídeo que falo exatamente sobre isso: https://www.youtube.com/watch?v=QWsm83prmZ4

É claro que se a gente olhar na lupa, melhoria de processos não é inovação. Acontece que está dentro do escopo, principalmente no Brasil, onde até a compra de maquinário mais sofisticado já coloca a empresa no rol das inovadoras. É meio doido isso, mas façam como eu, simplesmente aceitem e sigam a vida.

Indo para a inovação de produtos, me digam qual o sentido de ir para o mercado algo novo que não seja minimamente sustentável? Não sou inocente de achar que isso é preocupação da maioria, mas ainda assim não tem lógica nos dias de hoje isso não ser default na indústria. Não estou falando de lançar um produto sustentável, mas um produto qualquer que cumpra os requisitos de sustentabilidade, desde o design até a ponta final.

Inclusive, recomendo pesquisarem o caso da Nike sobre desenvolvimento de produtos e o sistema Making. Não sei como ele está hoje, até dei uma procurada, mas o site que apontavam está fora do ar, então é provável que o projeto não exista mais. Mas de qualquer forma, o registro histórico vale a pena.

Em 2013 fiz uma palestra e falei sobre esse case. Na verdade, falei sobre a escalada da Nike para a sustentabilidade, desde o escândalo de mão de obra infantil, até chegar no Making. A palestra foi gravada e disponibilizada no youtube. Apesar do tempo, ainda continua bem atual. Quem tiver interesse em assistir (modéstia à parte, vale bem a pena), basta acessar o link: https://www.youtube.com/watch?v=EYlvvGSyY68.

Sobre inovação em modelo de negócios, que é o meu grande xodozinho, parto da mesma lógica: não faz sentido esse nível de inovação sem levar em conta a sustentabilidade. Por exemplo: de que adianta as montadoras de carro buscarem a reinvenção do setor sem levar em consideração o modelo de servitização aliado à tendência de eletrificação e do próprio vehicle to grid (V2G)?

Pegando o gancho justamente da servitização, que é uma das maiores tendências da indústria do século XXI (alô galera, transformação digital entra em melhoria de processos, beleza?), é aqui que vejo a maior integração entre inovação e sustentabilidade. Citei acima o caso das montadoras de veículos, mas tem vários outros. Energia, por exemplo.

Um nicho que algumas distribuidoras estão entrando é o da gestão da minigeração de energia. Tipo: um prédio, um condomínio ou uma instalação industrial quer gerar a sua própria energia. A empresa é contratada para fazer o plano de geração e a gestão da energia produzia buscando a maior eficiência possível no menor custo... tudo isso tendo como pano de fundo a energia limpa e renovável.

Enfim, apesar de a maioria esmagadora das empresas estar entrando agora no que eu chamo de sustentabilidade 3.0, que é o da melhoria de processos, o futuro está na integração inovação e sustentabilidade num nível infinitamente mais sofisticado que passa pelo modelo de negócios. Não acredita? Espera e paga pra ver.


P.S. A imagem desde post remete à sexta onda de inovação, que é considerada a onda da sustentabilidade. As ondas de inovação foram uma teoria criada na primeira metade do século XX pelo economista austríaco Joseph Schumpter, que identificou que os super ciclos de inovação tiravam a economia do seu estado de equilíbrio. Escrevi sobre isso três anos atrás: http://www.sustentabilidadecorporativa.com/2017/04/sustentabilidade-e-sexta-onda-de.html



quarta-feira, 11 de março de 2020

É possível uma microempresa ser sustentável?


Que a sustentabilidade é uma necessidade imperativa no mundo dos negócios, isso é inegável. Mas num país com mais de vinte milhões de empresas formalizadas, sendo em quase sua totalidade MEI, micro e pequenas empresas, a maioria dos empreendedores acha que isso é papo para grandes indústrias, grandes prestadores de serviço ou grandes redes de varejo.

É claro que no mundo ideal, pôr em prática a sustentabilidade implica em disponibilizar recursos financeiros e humanos para custear projetos maravilhosos. Como seria lindo se isso fosse o mundo real, não é mesmo? Só que não é. E ainda assim não custa chamar atenção: recursos dispostos para a sustentabilidade, quando utilizados de forma estratégica, são investimentos que vão gerar uma série de benefícios e ganhos operacionais. E como todo mundo sabe, investimento é bem diferente de custo. Ele gera retorno.

Acontece que no mundo real, quando a gente fala de microempreendedores, uma das principais dificuldades é justamente dispor de capital para investir. Normal, afinal, na maioria das vezes ele, sequer, tem grana pra fazer o fluxo de caixa do mês. E aí vem a pergunta do milhão: sem hipocrisia e sem cagação de regra, como falar de sustentabilidade para esse público e que ela possa ser colocada em prática de forma real e efetiva?

A primeira coisa que a gente precisa entender é que a sustentabilidade é, antes de tudo, um processo de transformação de valores e mudança de comportamento. É ter em mente que o planeta já não comporta mais os excessos cometidos no passado e que é preciso bom senso na hora de comprar, produzir, negociar e vender.

Partindo desta lógica, o que você, micro ou pequeno empreendedor, que não dispõe de recurso financeiro para investir em sustentabilidade, pode fazer? Que tal começar pelo básico, como evitar desperdício, diminuir a quantidade de resíduo gerado, fazer coleta seletiva, consumir água e energia de forma responsável? Pode parecer pouco e até simplório. Na verdade é bem simplório, mas qualquer boa atitude vale. Sem contar que além de ajudar a minimizar questões relacionadas ao meio ambiente, você ainda pode economizar uma graninha no final do mês.

Somada à mudança de comportamento, é fundamental que os micro e pequenos empreendedores olhem para os processos da empresa: onde é possível melhorar? Tomemos um restaurante como exemplo. Tem pesquisa que aponta que 80% do desperdício de alimentos se dá na etapa de produção. Que tal observar o processo de preparo da comida para identificar gaps? Se é um restaurante a quilo, que tal passar uma semana observando a preferência dos clientes e preparar menos aquilo que tem menos saída?

Se é uma indústria e se o resíduo é inevitável, que tal buscar parceria com universidades para identificar o que pode ser feito, dentro de um processo de economia circular, com ele? Ou então, que tal buscar parceiros para comercializar esses resíduos, transformando o que ia pro lixo ou era custo em mais um dinheirinho no final do mês? Sei de algumas federações de indústrias que possuem bolsa de resíduos. Ah, também já tem um monte de startups direcionadas para esse tipo de negócio.

Enfim, o texto já está ficando longo, mas o que eu quero dizer é que qualquer empresa, de qualquer porte, independente do fator grana, pode e deve ser sustentável. Se o tema ainda for um tanto quanto complexo para você, comece pelo óbvio, pelo basicão. Acredite em mim. ele, sozinho, já faz uma baita diferença. Afinal, repito, estamos falando de um universo de 20 milhões de empresas, a maioria esmagadora delas MEI, micro e pequenas empresas.