A responsabilidade das empresas com a sustentabilidade do consumidor

O que é efetivamente design sustentável e o papel das empresas para um consumo responsável. Crédido da imagem: Marcello Cardoso

O ciclo de vida das embalagens dos defensivos agrícolas no Brasil

Você sabia que o Brasil é líder em destinação correta de embalagens vazias de defensivos agrícolas? Saiba mais sobre o trabalho do inpEV

A importância da matriz de materialidade para a sustentabilidade corporativa

Porque utilizar a matriz de materialidade para além dos relatórios de sustentabilidade é estratégico para as empresas

sexta-feira, 24 de julho de 2015

A responsabilidade das empresas com a sustentabilidade do consumidor


Vocês já repararam o tamanho da boca da embalagem da pasta de dente e o quanto ela faz com que utilizemos muito mais pasta do que o necessário? Alguém aqui consegue tomar iogurte até o final sem precisar enfiar o dedo pra raspar o tacho? Dependendo da embalagem, quase que a metade do produto fica retido! Você sabe o quanto de shampoo ainda tem na embalagem depois que, aparentemente, o produto acaba?

O design tem um papel fundamental na sustentabilidade e isso é um fato. Seja através do design thinking, da remodelagem de processos e mesmo no caso da arquitetura e da construção civil. É fácil as empresas praticarem o design nessa perspectiva. Traz eficiência operacional, eficiência de recursos. Economiza dinheiro.

Mas e quando falamos de uma prática onde o design é responsável não apenas por estimular o desperdício, mas também para aumentar, desnecessariamente o consumo de um produto? Ou seja, e quando o propósito do design é meramente aumentar as vendas, pergunto: cadê a sustentabilidade?

Sempre cito um exemplo meu, de um dia em que o shampoo acabou e só me dei conta quando estava no banho. Por razões que não vêm ao caso, havia quatro embalagens da mesma marca supostamente vazias. Por conta da necessidade, virei todas de cabeça para baixo na esperança de que a soma do resto de todas permitisse uma lavagem de cabelo. Resultado: só precisei comprar shampoo novo 15 dias depois.

E aí fico pensando: o que as empresas entendem como sustentabilidade de verdade? Neste caso específico, o que uma empresa de bens de consumo entende como sustentabilidade? Será que é só coleta seletiva, de consumo eficiente de água, energia? Será que é só a divulgação da foto do presidente numa creche do lado de crianças com meleca no nariz? Será que é só relatório de sustentabilidade?

Ah, Julianna, já cansei de ver empresas de bens de consumo olhando para o ciclo de vida das embalagens, estimulando o uso de refil, usando materiais biodegradáveis, embalagens compactas e bla bla bla bla. Ok, entendo e sei o quanto isso é fundamental. Mas cadê o design de embalagens voltado para o consumo responsável, para o consumo com redução de desperdício?

Alguém já pensou na quantidade de matéria prima, na quantidade de produto que é desperdiçado todos os dias porque o design da embalagem não facilita o seu consumo pleno? Não faço ideia de números, mas contando por baixo com 1% de desperdício de produto, dado o grande volume, qual o impacto disso no meio ambiente, na fauna, na flora, na biodiversidade inteira, ainda mais se levarmos em conta que a maioria esmagadora desses produtos são feitos com matéria prima extraída da natureza?


 E aí eu pergunto diretamente para Natura, para Unilever, para Danone e para um monte de empresa de bens de consumo: será mesmo que vocês são empresas sustentáveis? 

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Engajamento, sustentabilidade e protagonismo mundial: o ciclo de vida das embalagens dos defensivos agrícolas no Brasil

Que a agricultura brasileira é referência em todo o mundo, isso não é novidade. Pelo contrário, a cada ano que passa, batemos recordes de produção e somos um dos principais exportadores do planeta. Em tempos de mais de sete bilhões de pessoas e com projeção de chegarmos aos nove bilhões em 2050, ter uma agricultura sólida e consistente nos coloca numa posição globalmente estratégica.

Com o protagonismo da agricultura brasileira no mundo, um mercado que vem crescendo ano a ano é o de defensivos agrícolas. E na rabeira desse mercado, o Brasil encontrou espaço para outro protagonismo. Desde 2005 o país é líder mundial na destinação correta das embalagens vazias dos defensivos agrícolas.

Dentro da cadeia produtiva da agricultura, o descarte das embalagens dos defensivos é extremamente crítico, pois se feito de forma incorreta pode contaminar desde o solo e lençóis freáticos, até causar problemas de saúde em animais e pessoas. Porém, atualmente, 94% das embalagens plásticas primárias (que entram em contato direto com o produto) possuem destinação correta. 



Por força de legislação, indústrias e/ou os registrantes de defensivos agrícolas são obrigados a promover a destinação correta das embalagens vazias dos seus produtos. Para isso, foi criado em 2002 o Instituto Nacional de Processamento de Embalagens Vazias, o inpEV, que através do Sistema Campo Limpo, gerencia a logística reversa das embalagens dos defensivos em todo país.

O inpEV é formado pela associação de 100 empresas fabricantes, além de nove entidades do setor agrícola. Para alcançar a liderança mundial, o Sistema Campo Limpo trabalha de forma compartilhada, envolvendo todos os atores da cadeia: distribuidores e cooperativas, agricultores (5 milhões!), indústria e entidades governamentais.

O trabalho realizado pelo inpEV trata de todo o ciclo de vida das embalagens. Ele se inicia com o engajamento dos agricultores, que acontece já no ponto de venda. Na compra do defensivo agrícola, o produtor fica sabendo onde terá de devolver as embalagens vazias. A informação vem impressa na nota fiscal.

Após a utilização do produto, o agricultor deve lavar e perfurar as embalagens para que elas não sejam reutilizadas e então agendar o envio às unidades de recebimento. Lá os funcionários fazem a separação das embalagens que serão encaminhadas para reciclagem ou para incineração.



A efetividade do programa e as informações geradas permitem que a tomada de decisão seja orientada para redução de custos e aumento de produtividade. Isso se dá através de, por exemplo, agendamento eletrônico de devolução de embalagens, sistema logístico focado na otimização dos custos de frete e desenvolvimento de metodologia para recebimentos itinerantes, ampliando a capilaridade do recebimento das embalagens.

Volume de embalagens descartadas corretamente a cada ano (inpEV)

Pela complexidade, pela diversidade e pela quantidade de envolvidos no sistema, o inpEV acabou por se tornar referência mundial em logística reversa e sustentabilidade. Entre 2002 e 2013, por exemplo, a iniciativa evitou que mais de 390 mil toneladas de CO2eq fossem emitidas. Isso é o equivalente a mais de 900 mil de barris de petróleo. Além de todo o trabalho de conscientização de agricultores e a coleta das embalagens, o inpEV também promove educação ambiental para cerca de 230 mil estudantes de escolas públicas em 160 municípios.



Curtiu as informações? Saiba mais em: http://bit.ly/1CGWMYJ




sexta-feira, 10 de julho de 2015

A importância da matriz de materialidade para a sustentabilidade corporativa


Quando se fala de planejamento estratégico da sustentabilidade, muita gente da área não dá o devido valor a uma ferramenta importantíssima, que é a matriz de materialidade. A bem da verdade é que a maioria, mas maioria mesmo, acha que ela só tem valor na hora de fazer relatório de sustentabilidade.

A modo bem grosso, matriz de materialidade é a representação gráfica dos temas de sustentabilidade importantes para uma empresa. O problema é que ela é utilizada, basicamente, para definir quais indicadores do GRI serão reportados no relatório de sustentabilidade da empresa.

Gente, é esforço demais e informação estratégica demais para utilizar quase que exclusivamente numa das coisas que deveria ser de menor importância para a área de sustentabilidade de uma empresa! Lembrando que o conceito de relatório é colocar no papel aquilo que foi feito de verdade pela empresa. O principal é o fazer, não o registro disso!

Por ser tratada como mera coadjuvante, muitas vezes a empresa terceiriza a criação da sua matriz de materialidade (a ponto de não ter ninguém da área de sustentabilidade acompanhando o processo!) ou muitas vezes faz nas coxas. Alguém consegue entender como uma empresa de mineração não tem em sua matriz a questão da biodiversidade? Eu não consigo entender, mas já vi.

A questão é que para uma pessoa com visão estratégica ou para uma empresa que encara a sustentabilidade como área estratégica, a matriz de materialidade serve para outras funções que não apenas escolher o que vai ou não no relatório. Ela é uma baita ferramenta de gestão que auxilia, e muito, na tomada de decisão.

No planejamento, por exemplo, ela aglutina de forma inteligente informações valiosas para análise de cenários, análise de riscos, análise swot e plano de ações. Para mapeamento de stakeholders, a matriz de materialidade pode ser utilizada como parte do processo para definir questões relevantes que a empresa deve considerar, levando-se em conta o impacto e o interesse do público de relacionamento. 

O G4 fez as empresas falarem mais da matriz de materialidade, já que a premissa agora é o que é importante de se relatar e não mais quantos indicadores de sustentabilidade relatar. E para isso funcionar, a cada ciclo de revisão de indicadores, em tese, um esforço considerável é feito para se definir a materialidade de uma organização.

Quer dizer, ao menos deveria ser, apesar de já ter visto empresa definindo materialidade em uma reunião de duas horas com cinco pessoas presentes e zero de consulta a qualquer stakeholder. Mas pensando no mundo ideal, partindo do princípio que sim, as empresas definem suas matrizes como tem de ser, pergunto: sério mesmo que uma informação desse nível estratégico fica restrita, na maioria das vezes a um relatório que ninguém lê?  


quinta-feira, 25 de junho de 2015

Você quer ajudar a construir o sustentAPP?

Como alguns aqui devem saber, desde o início do ano passado iniciei um projeto de tecnologia para sustentabilidade que é o sustentAPP. Ele chegou a entrar na fase de protótipo, mas ficou bem longe de ser o que eu e as pessoas que me ajudaram a idealizá-lo queríamos. Mas mesmo com o protótipo longe do ideal, no ano passado fomos finalistas dos prêmios Innovation Open, concurso que aconteceu dentro do Sustainable Brands, e do Jovem Empreendedor, concurso promovido pelo Jornal O Globo e pela FGV. 

A ideia inicial do sustentAPP era colocar no mercado um aplicativo de diagnóstico de sustentabilidade para micro e pequenas empresas. Depois disso a proposta era ampliar esse modelo para trabalhar o diagnóstico e monitoramento na cadeia de fornecedores das grandes. Porque esse é o grande gargalo de sustentabilidade nas empresas. O que existe hoje, quando existe, é uma pessoa fazendo o controle bem básico dos indicadores através do Excel. Um trabalho totalmente manual e que fica desatualizado diariamente.

Agora imagina fazer isso numa empresa com 5 mil fornecedores? Pois é. Não fazem.

Pois bem, o sustentAPP voltou para o ponto zero, e quando tomamos essa decisão, acabou que ele precisou ser paralisado por questões pessoais de cada um dos envolvidos. E ficou praticamente parado por quase um ano. Só que há algumas semanas eu resolvi retomar. Fiz algumas mudanças no escopo e o piloto continua voltado para micro e pequenas empresas, mas com um formato completamente diferente do que fora inicialmente idealizado e focado, em princípio, nas empresas de varejo.

Acontece que nem todas as mãos que se tinha no ano passado, se tem agora. A primeira fase dessa retomada consistiu na escolha de indicadores macros, definição de indicadores micros, atribuição de peso aos indicadores. Isso já está pronto. A próxima etapa é a de criação dos diagnósticos. Como eles são muitos, confesso, as mãos que se foram estão fazendo falta e, hoje, não tenho mãos suficientes para dar conta deles num tempo apropriado.

E aí pergunto: haveria pessoas interessadas em me ajudar a criar esses relatórios para o sustentAPP? Seria um trabalho VOLUNTÁRIO. Assim como também é um trabalho voluntário para mim e é por isso que não tenho como dedicar tanto tempo a ele. Aos que costumam ver o copo meio vazio, ressalto que não estou obrigando ninguém a nada, ok? Então se você não estiver interessado, ignorar esse post é mais do que suficiente.

Já aos que veem o copo cheio, imagino ser uma oportunidade interessante para ganhar experiência na área, se não tiver, ou a chance de participar de um projeto inovador que pode gerar frutos no futuro. Não tem nada garantido, mas existe essa possibilidade. E todos os envolvidos serão considerados.

As únicas exigências pra participar do projeto são: interesse em sustentabilidade corporativa (frisando o corporativa, afinal, o objetivo do sustentAPP não é salvar o mundo, as árvores, nem os bichinhos, é um projeto focado em empresas), boa redação e domínio do português.

Pois bem, quem quiser me ajudar a colocar o sustentAPP no ar, basta enviar um email para sustentabilidade@sustentabilidadecorporativa.com até o dia 07/07 explicando porque se interessou em participar no projeto e qual o seu interesse com sustentabilidade corporativa. Ah, se tiver alguma experiência na área, é importante colocar. Mas deixando claro que isso não é pré-requisito obrigatório.


Quem for selecionado passará por um mini treinamento sobre o conceito do sustentAPP e de como fazer os diagnósticos. Ah, fiquem tranquilos quanto a direitos autorais. Todos que participarem do projeto terão seus nomes marcados no hall da fama dos aplicativos de sustentabilidade (o:

segunda-feira, 8 de junho de 2015

O brasileiro, a sustentabilidade e o consumo colaborativo

Se você conversar com economistas que não se engessaram no tempo, a maioria vai dizer que o futuro passa pela economia colaborativa/ compartilhada. Em Corporação 2020 e Muito Além da Economia Verde, livros sensacionais e presentes na lista do top 10 de sustentabilidade aqui do blog, Pavan Sukhdev e Ricardo Abramovay, respectivamente, apontam o porquê dessa economia ser uma das principais soluções para o fim da sequência de crises e para a sustentabilidade.

Mas o que é exatamente a economia compartilhada?

De forma bem grosseira, é um modelo onde os produtos são compartilhados. A base do consumo está no uso ao invés da posse. Estou falando de compartilhamento de carro, bicicleta, hospedagem, moradia, alimento, roupa, informação, tecnologia... qualquer coisa. E pelo lado do modelo de negócios, significa uma empresa sair da manufatura e fazer a transição para um modelo de serviços.

O consumo colaborativo não é novo, pelo contrário, mas ele foi potencializado pelo uso da tecnologia e dos aplicativos do gênero, como o Uber, o Air BNB, o Bike Rio dentre outros. E ele, de cara, minimiza um problema crítico da sustentabilidade: a obsolescência programada. Mas não é só isso. Além de toda a cadeia da obsolescência (geração de resíduos, descarte incorreto, consumo excessivo de matéria prima etc), tem também outras questões que devem ser consideradas pela sustentabilidade ocasionada a partir da economia compartilhada.

Eu, como pesquisadora e apaixonada pela economia de baixo carbono, tenho alguns dados para exemplificar o impacto da economia compartilhada/colaborativa na sustentabilidade, na mobilidade, nas finanças e na remodelagem de negócios de velhas empresas.

Em 2013, apenas nos EUA, o mercado de compartilhamento de carros movimentou quase um bilhão de dólares. A tendência é que esse mercado chegue a mais de seis bilhões de dólares em 2020. Além do dinheiro circulante, esse tipo de compartilhamento vai evitar a compra de 1,2 milhões de automóveis nos próximos cinco anos e evitar a emissão de muitas toneladas de CO2 na atmosfera. Isso é louco. Estou falando de algo que vai acontecer praticamente amanhã!     
          
E aí pergunto para vocês: e aqui no Brasil, qual o tamanho do consumo colaborativo?

Uma pesquisa recente conduzida pela Market Analysis com 900 brasileiros adultos, apontou que 20% deles já ouviram falar ou leram alguma coisa sobre consumo compartilhado. Pouco. Muito pouco. O índice mais que dobra (42%) quando as pessoas estão no topo da pirâmide socioeconômica e tem alta escolaridade. Esperado. Mas ainda pouco para a facilidade no acesso à informação que esse grupo tem.

Um dado curioso é que no principal centro de consumo do país, a região sudeste, o índice de conhecimento sobre consumo colaborativo é abaixo da média nacional das cidades consultadas, sendo o Rio de Janeiro a capital com menor conhecimento (14%). Já Recife, uma das cidades pioneiras no compartilhamento de automóveis, o índice alcança 50%.

No Brasil, a economia compartilhada ainda está engatinhando. No caso de compartilhamento de carros, a expectativa é que se chegue a uma base de cerca de 200 mil clientes até 2018, o que é bem tímido em relação aos EUA e Europa. Além disso, para consolidarmos esse modelo de negócios, ainda há um longo caminho a ser percorrido, que vai desde superar barreiras de desconfiança, regulamentações governamentais e de mercado, até maturidade da sociedade, afinal, nosso país não é reconhecido como um grande prestador de serviços, não é mesmo?