quarta-feira, 7 de julho de 2010

A Copa além do futebol – o real legado de 2010 para a África e as lições para 2014

Quando foi anunciada a escolha da África do Sul para sediar a Copa de 2010, o mundo olhou com muito carinho não apenas a oportunidade que um país africano teria de mostrar sua capacidade de realizar grandes eventos, mas também os benefícios que acarretariam para todo o continente. Hoje, a menos de uma semana para o término da competição, a pergunta que faço é o que essa Copa trará de legado para a região mais pobre do planeta.

Para um país desenvolvido, como a Alemanha, sediar um torneio da magnitude da Copa do Mundo, tem como principal legado a imagem. O que é bom também. Sem contar que foi em 2006 que a FIFA deu o pontapé inicial na responsabilidade ambiental com o Green Goal. E a Alemanha cumpriu muito bem o seu compromisso com o meio ambiente, dando uma aula de como fazer um evento para milhões de pessoas com o menor impacto possível.

Acontece que quando se fala de países em desenvolvimento, o legado esperado é muito maior. Começa com o básico até mesmo para a realização do torneio, como infraestrutura, chegando a questões de educação, capacitação, saúde e segurança. E no caso da Copa de 2010, o esperado era que o legado não ficasse restrito ao país sede, se estendo a todo continente.

Ficou evidente a melhora de alguns pontos de infraestrutura na África do Sul. Os aeroportos foram reformados, foi construída a primeira linha de metrô, assim como corredores de ônibus e estradas partindo de Johanesburgo. O investimento em saúde, com a criação de centros hospitalares nas províncias que receberam o evento, será um legado de extrema importância para um país que tem 18% dos adultos contaminados pelo vírus HIV.

A grande questão é que as exigências da FIFA são limitadas a ações que impactem o evento. Não importava para a entidade máxima do futebol se outras regiões ficariam a ver navio, caso os aeroportos internacionais, as estradas que ligam as cidades sede e o transporte para os estádios estivessem funcionando. A mesma lógica serviu para investimentos em energia e telecomunicações. Se tudo estivesse assegurado para a realização dos jogos, os gestores da FIFA não perderiam o sono se uma cidade remota sofresse de constantes apagões.

Não vou citar o legado ambiental, que basicamente ficará resumido à neutralização de carbono. Ou seja, mitigar ao invés de minimizar. Mas uma pergunta me deixa cabreira: e o tão necessário e divulgado legado social? Numa competição que custou aos cofres de um país pobre dez vezes mais do que o previsto inicialmente, a estimativa de lucro da FIFA é de US$ 3,2 bilhões. Desse montante, ela prevê U$ 96 milhões para obras sociais em todo continente. Ou seja: 3% para cumprir sua responsabilidade com a região mais miserável do mundo.

É claro que a FIFA (e estendo ao COI também) deveria fazer muito mais do que vem fazendo pelos países sede de suas competições. Mas acontece que muito da qualidade do legado que será deixado depende fundamentalmente de questões políticas. Estamos na boca de realizarmos os dois maiores eventos esportivos do mundo e temos na conta um saldo negativo dos jogos pan-americanos de 2007. Que a população fique de olho e cobre, porque se depender de política, o erro vai se repetir.

4 comentários:

Julianna Antunes disse...

Me resguardando de espertinhos da internet: A Copa além do futebol – o real legado de 2010 para a África e as lições para 2014 foi escrito e postado no dia 07/07.

Diêgo Poseidon Lôbo disse...

Olá, Julianna, belo post.
Eu concordo contigo em vários aspectos. Até me perguntava porque se ter um evento dessa magnitude num lugar que precisa tanto.
Mas tive a oportunidade de visitar o país no começo do ano e a diferença entre o Brasil, acredite, é gritante. Fui com muito medo, mas percebi que não há motivos: muitos lugares tranquilos, verdes, e pra lazer. Eles construíram esse metrô aí, que inicialmente liga Joburg à Petrória, em apenas dois anos (o metrô de Salvador, que liga uns 4 bairros, tem mais de 7 anos e ainda sem previsão de término). Os estádios também foram rápidos. As estradas são lindas, parecendo um tapete. E o povo então estava muito excitado com tudo. Mesmo tento perdido, alguns amigos me disseram que não estavam tristes por isso. E que têm certeza que virão ao Brasil na próxima, por seus próprios méritos.
Mas o que quero dizer é que não tenho muita fé de que essas coisas darão certo aqui. O país é muito currupto. Não temos transporte nem segurança adequadas pra um evento desse. Isso piora se políticos despreparados tomarem posse nos próximos 4 anos.
Enfim, vamos esperar... e torcer.

Julianna Antunes disse...

Diego, mas e segurança, educação, emprego? Kd esse legado? Hoje mesmo no caderno de esportes do globo uma baita matéria falando que a copa ainda nem acabou e a violência voltou.

Aqui no Brasil o Lula já mandou afrouxar fiscalização pra Copa e pra 2016. E acabou de falar lá na África que se compromete a fazer uma copa verde. Ele acha o que, que a gente é idiota?

Diêgo Poseidon Lôbo disse...

Eu sei!
Você mesma falou: o Pan foi um fracasso! Não posso afirmar, mas falam por aí de acordo entre a polícia e traficantes, para se "manterem quietos" durante o evento.
Não tou dizendo que a África do Sul é perfeita, veja o passado deles. Mas acho que, justamente devido a história deles, eles parecem encarar as coisas de uma outra forma. Não sei, não consigo entender.
Mas pense comigo: alguns estádios custuram 1 a 2 milhões para serem construídos. O novo estádio de Salvador tem a estimativa de custar R$ 590 milhões de reais, ou seja, quase meio bilhão de reais. Isso é loucura!!! Não há como tanto dinheiro ser gasto. Eles mentem em nossa cara, dizem que estão roubando e, além de não fazermos, quando fazemos, não há resposta. Entende o que quero dizer?
O mesmo presidente Lula disse que essa vai ser uma Copa de transparência. Bem, sendo no Brasil, eu não acredito.