segunda-feira, 18 de abril de 2011

A realidade por trás das certificações

Nos dias de hoje, em qualquer área, muito se fala de certificações. A área de TI então tem uma enxurrada delas e o mercado abre as portas para quem se dispõe pagar uma pequena fortuna para ostentar uma suposta qualificação a mais. Na sustentabilidade isso não é diferente. Acontece que, diferente do que as pessoas imaginam, certificação não é sinônimo de competência (no caso de profissionais) e não é sinônimo de sustentabilidade (no caso de empresas).

Muitas empresas acham que investir uma boa quantia (porque é caro) numa certificação como a ISO 140001 vai fazer com que sejam sustentáveis ou, pelo menos, ambientalmente responsáveis. Não vai. A ISO certifica um processo ou parte de um processo. E o escopo de atuação dela é limitado. Por exemplo: ela certifica que a gestão de resíduos de uma empresa está em conformidade com a norma. Mas ela não garante que o consumo de matéria prima que gera esses resíduos se dê de uma forma sustentável. 

Ontem soube da nova coleção da Arezzo, a Pelemania. A Pelemania é a entrada da Arezzo no mercado de casacos e acessórios de inverno, utilizando peles de coelho, cabra, ovelha, raposa... Aí vem a empresa e fala a insanidade de que as peles são certificadas. O que isso quer dizer? Que o coelho sofreu menos para morrer?

Antes que alguém venha falar de carne, há uma diferença básica. Sou a favor de exigirmos uma CERTIFICAÇÃO de procedência da carne; é o mínimo, pois o processo hoje é altamente danoso, principalmente a carne da região norte. Depois disso podemos cobrar sustentabilidade das empresas que vendem o produto. Mas não associo a sustentabilidade ao vegetarianismo. Isso é biológico. Os seres humanos são animais carnívoros. Seja vegetariano quem quiser, mas não buzinem no meu ouvido me chamando de insustentável por comer carne.

Pois bem, a diferença entre ter uma certificação que assegura processos sustentáveis para a produção de carne e a produção de pele para confecção de casacos está em uma única palavra: necessidade. Além de não termos necessidade de usarmos peles de animais para nos cobrirmos, pois há as peles sintéticas e muitas outras opções, me questiono se a Arezzo fez alguma pesquisa climática para lançar uma linha de produtos que em nada tem a ver com o nosso clima. Ou seja, estupidez. Certificada.

A questão é que certificação hoje é uma indústria muito lucrativa. Seja para as empresas que certificam, seja para as empresas que qualificam os auditores, seja para as próprias empresas certificadas, pois fica cada vez mais claro que o objetivo não é melhoria e eficiência de processos, mas marketing e consequente lucro rápido. Afinal, pouco importa se estivermos fazendo um consumo completamente irresponsável. Os produtos certificados estão aí para aliviar a nossa consciência, mesmo que, de fato, eles não sejam sustentáveis.

E finalizando, não, Arezzo, peles não são obrigatórias neste inverno. E em nenhum deles!

3 comentários:

Profa. Daiany - QUIMICA disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Bruno Rezende - Coluna Zero disse...

Olá Julianna!

Achei ótimo seu post e muito pertinente. Vejo uma chuva de certificações e selos supostamente verdes com o simples objetivo de aumentar a credibilidade / receita de um produto. Balela, na maioria dos casos os selos apenas alimentam a indústria do greenwashing.
Mas a pergunta que faço é: a culpa é de quem? A resposta que dou: a parcela maior é dos governos.
Acredito que a criação de leis, a execução e a fiscalização dura dispensaria qualquer tipo de certificação, até porque muitas empresas (as quais não citarei nomes) atualmente são "queridinhas" das fiscalizações por conta destas mesmas certificações. Um absurdo a parte.

Parabéns pelo post.

Abraços

Giuliano disse...

Prezada Julianna,

Sempre acompanho seus artigos e acredito que você tenha uma competência ímpar para expressar suas ideias em favor da sustentabilidade. Aproveito a oportunidade para parabenizá-la pelo do belo trabalho desenvolvido até aqui. Você sempre levantou assuntos bastante pertinentes e, na grande maioria das vezes, de forma bastante acertada.

Mas não posso me calar diante da leitura deste seu último artigo (A Realidade por trás das certificações). Permita-me expressar minha opinião. Apesar deste artigo conter uma centelha de verdade em determinados pontos (não sei nada sobre essa história da Arezzo; não posso discorrer sobre isso), ele me decepcionou consideravelmente.

Colocar em descrédito um setor tão importante para a sustentabilidade, ou “a indústria da certificação", como você cita, e toda uma gama de profissionais fundamentais mobilizados para a construção de processos organizacionais mais sustentáveis, é um tanto quanto leviano, para não dizer inconsequente. Peço que reconsidere suas ideias acerca do assunto, talvez entendendo-o em toda a sua plenitude, antes de se referir com tamanho desrespeito para com engenheiros, administradores, consultores, auditores, e outros profissionais com formação e competência técnico-científica específica, ratificada por organismos internacionais e instituições mundialmente reconhecidas.

Além disso, marketing e lucro rápido todo mundo quer e não é vergonha nenhuma desejar isso. Até porque o lucro é uma das razões existenciais das empresas. Além, é claro, do atendimento das novas demandas sociais e ambientais. Mas o marketing a que você se refere, não é apenas a publicidade socioambiental. E mesmo se fosse, não necessariamente seria greenwashing. É uma ferramenta essencial para todo o planejamento estratégico voltado não só para a sustentabilidade, mas para muitas outras esferas organizacionais. E a publicidade é apenas a ponta do iceberg do marketing.

Quando você afirma "fica cada vez mais claro que o objetivo não é melhoria e eficiência de processos", é melhor você se informar melhor, até porque, como jornalista, esta é uma das suas responsabilidades. As próprias normas internacionais ISO são baseadas no princípio da melhoria contínua, isto é, se esta melhoria não for ratificada pelos auditores, o processo não será certificado (só para citar um exemplo). E falo com propriedade, pois sou auditor.

Se a certificação contribui para o aumento do lucro, isso é ótimo, pois ela garante a disseminação da cultura da melhoria socioambiental (mesmo que seja "limitada" como a ISO - segundo sua afirmação) ao mesmo tempo em que melhora comprovadamente a eficiência de processos e abre mercados diante de clientes ambientalmente mais exigentes. E isso gera mais lucro. É um estímulo bastante significativo até para empresários "que só pensam em lucro". Pelo menos eles terão que cumprir com requisitos específicos voltados à preservação ambiental e responsabilidade social para certificar seus processos. O que já é um bom começo nesta era de necessária transformação do mercado, independentemente das intenções das organizações.

Só para dar um exemplo: sou auditor atuante em auditorias compulsórias no Paraná (nada a ver com certificação, nem levamos em conta nos critérios de auditoria). É fato: uma empresa com ISO 14001 certificada atende com muito mais eficácia aos critérios ambientais verificados do que empresas não certificadas. E renovam suas licenças de operação com muito mais facilidade, pois, na maioria das vezes, o atendimento à legislação é pleno. Ao contrário de muitas empresas não certificadas.

Sim, existe muito greenwashing por aí que deve ser combatido. Mas "a realidade por trás das certificações" é uma só: maior garantia de processos cada vez mais sustentáveis (repito, das certificações reconhecidas mundialmente por governos, sociedades, universidades, empresas, cientistas, etc - como a ISO 14001).

Reitero meus agradecimentos pela oportunidade,

Giuliano Moretti