quarta-feira, 19 de novembro de 2014

A sustentabilidade como um tema de segunda classe nas empresas

Intrigada com os recentes desdobramentos da operação Lava Jato, que culminaram com a prisão dos corruptores, me senti tentada a procurar o relatório de sustentabilidade da Camargo Corrêa, Engevix, Galvão Engenharia, IESA, Mendes Junior, Queiroz Galvão, OAS e UTC para ver o que era falado sobre corrupção. Porque, convenhamos, ler missão, visão e valores era piada pronta.

Pois bem, sanei a tentação e, confesso, fiquei chocada. Camargo Corrêa, IESA, Queiroz Galvão, Engevix, Galvão Engenharia, Mendes Junior, e UTC, nenhuma, eu disse NENHUMA delas possui relatório de sustentabilidade. A única que possui é a OAS e mesmo assim só publica de dois em dois anos.

E lá fui ver o relatório de sustentabilidade da OAS. O que tem disponível é o de 2011/2012. Quando fui no índice remissivo, até encontrei a menção aos indicadores SO2, SO3 e SO4, que tratam de corrupção. Achei estranho não ter a indicação das páginas correspondentes, mas como Deus inventou o control + F, digitei a palavra corrupção e, pasmem, ela é citada 4 vezes em todo relatório. O problema é que ela só é citada no índice remissivo. Ou seja, não tem absolutamente nada no relatório que trate do tema.

E aí não satisfeita com a situação, fui olhar o link relativo à sustentabilidade/responsabilidade social/ambiental da página dessas empresas. Coisa linda de Deus. #SQN

Camargo Corrêa: Tem um instituto lindo de morrer, mas sustentabilidade e transparência que é bom, necas. Minto, sustentabilidade é baseado em três pilares: agenda climática, gestão de carbono e prêmio de inovação sustentável. Juro, achava que isso era meio ambiente. Inclusive, achava que agenda climática e gestão de carbono era um consequência do outro.

IESA Oil & Gas: O link de gestão social se resume a apresentar os balanços sociais da empresa, sendo que a última edição do relatório data de 2011. O link QSMSRS, que eu chuto ter a ver com meio ambiente, ao clicar aparece uma página em branco. Na IESA Projetos & Equipamentos, no link de gestão social, o último balanço data de 2012 e o que eles chamam de Fundação Inepar é apenas o que nas empresas normalmente se convenciona a ser a área de benefícios. Ah, também tem link para o site de voluntariado deles. O link de sustentabilidade é nada mais que as ações ambientais da empresa, sendo que com exceção do programa de desperdício de alimentos (que dá números de 2011), o resto nada mais é que cumprimento de requisito legal.

Queiroz Galvão: Não apresenta nada de gestão, apenas projetos. Destaco o patrocínio à Orquestra Sinfônica Brasileira (isso é cultura, não RSE e, muito menos, sustentabilidade. Sem contar que é lei Rouanet; sai de graça pra eles!) e reforma do Parque Zoobotânico (que, curiosamente, está dentro de meio ambiente!)

Engevix: O link de responsabilidade socioambiental é subdividido em Pacto Global (que não significa absolutamente nada, já que, sem desmerecer o esforço da ONU, a participação é a coisa mais simplória e fácil de ser obtida. E longe de significar sustentabilidade), Instituto Engevix (projetos sociais da empresa), Ambiental (os destaques são a ISO 14001 e o Prêmio Fritz Muller ganho em 2007) e Cultural (projetos bancados pela lei Rouanet, ou seja, a empresa tem o nome estampado como patrocinador, mas o dinheiro é governamental).

Galvão Engenharia: Não existe, sequer um link no site que trate de sustentabilidade, responsabilidade social ou ambiental. O máximo que se consegue é um link para o código de ética dentro da seção de governança corporativa. No código de ética eles mencionam os pilares sociedade, comunidades e meio ambiente, tudo isso em uma única página e com letra grande. O documento tem 11 páginas e a palavra corrupção foi citada uma única vez, já nas considerações finais e no seguinte contexto: “O combate à pirataria, sonegação, fraude e corrupção são fundamentais para a formação de um ambiente de trabalho saudável e uma sociedade mais justa.” Ponto.

Mendes Junior: O conteúdo de responsabilidade social da empresa se resume a meia página, uma foto grande e fala dos três pilares que eu não entendi muito bem, mas são recursos financeiros (doação de dinheiro para as instituições), voluntariado e apoio a comunidades (ela diz que apoia as comunidades do seu entorno. Eu digo que ela apenas cumpre a lei).

UTC: De todas as empresas, acredito que é a que tem a disposição de informações mais próxima do que a realidade demanda. Gaba-se pelas certificações SA 8000 e ISO 26000. Falta alguém avisar que, do ponto de vista da sustentabilidade, essas certificações não são praticamente nada.  Dá bastante espaço para os projetos sociais. No link de QSMS, o espaço dado ao meio ambiente é pequeno e, mais uma vez, ressalta a posse da certificação ISO 14001.


Enfim, independente dos escândalos recentes, essas são empresas que trabalham diretamente com o setor de construção e/ou petróleo e gás. São dois setores altamente nocivos para a sustentabilidade de onde se espera uma atuação completamente diferente do que essas empresas apresentam para o seu público.

E se a falta de compromisso com a ética e transparência fica clara quando se vê executivos sendo presos por corrupção, essa pequena pesquisa que fiz só me dá a certeza de que eles (e a maioria das empresas) tratam sustentabilidade como algo de segunda classe.


2 comentários:

Filipe Piragibe disse...

Também tenho notado em vários relatórios, de empresas de diferentes ramos para dizer a verdade, uma falta de objetividade enorme. Muito texto e pouca ação. Falta uma metodologia adequada para mensuração de resultados, quantificar o uso dos insumos, estabelecer metas de melhorias, enfim mostrar relatórios onde possamos ver resultados práticos. Investimentos em novas tecnologias, em diferentes processos. Falta muita coisa.

Felipe Vigato Prado disse...

Ótimo levantamento!!! Se já existiam diversas evidências de que empresas sustentáveis são mais lucrativas, agora estamos percebendo também que empresas sustentáveis são menos corruptas!