terça-feira, 2 de dezembro de 2014

O ISE Bovespa, o GRI, a Renner e o trabalho escravo

Eis que na semana passada surge mais um escândalo de grande empresa conhecida pela população que faz uso de mão de obra escrava ou análoga a tal. No caso a Renner. Infelizmente isso não me choca mais. Assim como também não me choca as desculpas esfarrapadas de que a culpa não é dela, bla bla bla, foi na cadeia de fornecedores, bla bla bla, somos uma empresa ética, bla bla bla, comprometidas com a sustentabilidade e bla bla bla.

Sabe o que me chocou? A empresa acabou, eu disse ACABOU de entrar no Índice de Sustentabilidade Empresarial da Bovespa. Quando eu digo acabou de entrar é acabou de entrar mesmo. Quer saber a ironia? Isso aconteceu exatamente um dia antes da mídia anunciar a multa de 2 milhões de reais da empresa. Parece piada, não? 

Há um tempo, ou melhor, há quase quatro anos, escrevi um post onde questionava o real critério para uma empresa ser listada no ISE Bovespa. Não acompanho o ISE de perto desde 2012, mas esse caso da Renner me fez ver que nesses quatro anos, pouco ou nada mudou em relação aos critérios. Que, sério, deve ser qualquer coisa, menos sustentabilidade.  

Apesar de não acompanhar de perto, é sempre bom lembrar a metodologia do ISE. O método é simples. E simplesmente falho. Ao invés de a Bovespa estabelecer um corte mínimo para as empresas fazerem parte do índice, ela envia um questionário às 200 mais valiosas (não sei se mudou os números nesses últimos anos, mas historicamente o retorno fica na base de 50 questionários para 40 vagas) e seleciona por comparação das respostas. Ou seja, não tem um padrão mínimo de exigência e há grande chance de nivelar por baixo.

Não satisfeita em saber que a Renner, que caga pra sua cadeia de suprimentos, compõe a carteira de  sustentabilidade da bolsa de valores, resolvo me aprofundar no greenwashing da empresa e vou ler o relatório de sustentabilidade do ano passado. Mentira. Não tenho estômago para o mundo da fantasia. Apenas baixo o documento e coloco no buscador a palavra-chave escravo. Encontro sete ocorrências. A primeira diz que ela formalizou sua adesão ao Pacto Global das Nações Unidas, ao Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo e aos Princípios de Empoderamento das Mulheres.

Lindo. Mas entendem quando digo que ser signatário do Pacto Global não significa absolutamente nada? Tá aí a prova.

Outra ocorrência da palavra é quando a empresa diz no relatório que, em relação aos seus fornecedores, entre outros compromissos expressos no termo de compromisso está o repúdio aos trabalhos infantil, forçado, análogo ao escravo ou em ambiente inseguro e a qualquer tipo de discriminação ou assédio.

Cara Renner, eu também repudio tudo isso. Mas o que eu quero saber mesmo é o que você faz para combater esses problemas. Desconfio que seja nada.

Aí as outras ocorrências da palavra escravo estão na papagaiada de materialidade (acredite, isso é tema material para a empresa) e índice remissivo. Resumindo: bla bla bla bla bla bla.

Sério, estou muito, muito, muito, muito cansada da área de sustentabilidade das empresas. Entra ano sai ano e nada muda. As pessoas continuam fazendo um monte de discurso vazio, falando demagogia atrás de demagogia, que sustentabilidade está no DNA, que é imperativo dos negócios, que está dentro do planejamento estratégico, mas tudo continua sempre a mesma palhaçada.

Mas sabe quem é a única pessoa que pode mudar isso? Você. É isso mesmo. Você. Eu. O seu vizinho, a sua mãe, seus amigos, os meus...

Julianna, ficou maluca?

Posso até ter ficado, mas a verdade é que as empresas só vão mudar efetivamente quando os seus consumidores derem um ultimato. Entendam que para uma empresa te oferecer preços muito baixos, alguém vai ter de pagar a conta. E não vai ser ela. E também não vai ser o fornecedor. Vai ser o elo mais fraco dessa cadeia, os funcionários. 

Então, assim como a Renner foi corresponsável por esse absurdo, somos todos. E a única forma de mudar situações assim é dizer não para essas empresas irresponsáveis. Simples.

7 comentários:

Unknown disse...

Gostei da análise mas não gostei dos últimos dois parágrafos.
Está descrevendo efeitos do nosso sistema socioeconômico (maximizar os interesses pessoais, maximizar os lucros). O trabalho escravo é uma consequência disso, uma consequência esperada e natural num ambiente competitivo onde todo mundo quer ficar rico, já que é a definição de "Pessoa de sucesso".
Não dá para botar o ônus no consumidor e, no final das contas, não dá para lutar contra o capitalismo fazendo compras. Não é por aí, é nadar contra a maré : vai chegar a hora que a galera vai cansar e voltar a seguir a correnteza.
Não precisamos mudar as regras do jogo. Precisamos mudar o jogo.
Os 99% dos movimentos occupy já entenderam isso, outros milhões do movimento zeitgeist e de vários outros movimentos grassroots já entenderam isso também.
Os hippies, os anarquistas, os utopistas, os comunistas e os tecnocratas desses movimentos não falam só merda...

Julianna Antunes disse...

Mas eu não falei da questão do consumismo e muito menos do capitalismo. Falei da questão de pagar o preço justo, ou melhor, o preço real. Quando uma empresa vende um produto por um preço muito barato, a conta não vai fechar de algum lado. E geralmente é do lado mais fraco. As pessoas, o meio ambiente...

PLANO DE CONTINUIDADE DE NEGÓCIOS - BCP disse...

Julianna, li a notícia semana passada da mesma forma que você e ao ler a matéria ORIGINAL, vi que a chamada para a Renner era um exagero (quem usava trabalho escravo era uma empresa sub contratada). Será que ela pode ser responsabilizada por isso ? Será que podemos levar o Governo Federal por todas as crianças que morrem de doenças ou de fome por falta de apoio do Estado, GARANTIDO PELA CONSTITUIÇÃO ? A resposta óbvia é não. O Mundo nõa é justo e mais injusto ainda são os homens. Lamento, mas se voê quer criticar algo, critique a ineficácia de padrÕes e certificados. Porque se as empresas forem sérias, não precisam de papéis para provar. E se não forem, farão tudo para mostrar que são...

Tatiana Teixeira disse...

Oi julianna, faz um tempo tenho lido seus artigos. Muito interessante, convido a que conheça meu blog sobre os temas de sustentabilidade também. www.apoena.es. espro tua visita. Abraço!
Apoena GI

Patrick de Lima disse...

Olá Julianna,

"Cara Renner, eu também repudio tudo isso. Mas o que eu quero saber mesmo é o que você faz para combater esses problemas. Desconfio que seja nada."

Assim como desconfias que a Renner não faz nada, desconfio que você nada pesquisa. Desculpe a força da frase, quis somente usar o mesmo peso de sua afirmação, mas de forma alguma quis ser grosseiro.

Também conheço pouco da Renner, mas sei que não produzem o que vendem, e dizer que a culpa é da cadeia, não é desculpa e sim, realidade. Inclusive, vi você mesma esclarecer isto no vídeo sobre o SuntentAPP.
Eles participam da abvtex (http://www.abvtex.org.br/), e auditam a cadeia de suprimentos através da Bureau Veritas, simplesmente umas das maiores empresas de auditoria do mundo. Mas mesmo assim, não existe forma viável de auditar uma empresa todo dia, quanto mais uma cadeia com 300, 500, 1000 fornecedores. Além disto, a empresa coloca em contrato que repudia tais situações, e só com esse contrato é possível trabalhar com eles.

Esses são alguns dos fatos que conheço sobre eles, coloco-os aqui, pois em um blog com opção de comentários, acredito ser sempre saudável levantar mais pontos de discussão.

Obrigado pelo espaço e parabéns pelos comentários. Esse tipo de inciativa é que mostra que podemos fazer mais do que sonhar com sustentabilidade, e sim agir como tal na rotina, criando uma cultura.

Abraço,
Patrick

Julianna Antunes disse...

Patrick, sinceramente não sei qual o seu intuito com o comentario, já que você acabou por demonstrar que não entende muito de sustentabilidade quando joga a culpa na cadeia produtiva. Sabe porque esse tipo de problema acontece? Por pressão de baixo custo do cliente. Você acha que a Renner vai querer pagar mais caro para ter a sua cadeia limpinha e perder mercado com preços mais altos, ainda mais em tempos de crise?

Você também demonstrou não ter entendido muito bem o que escrevi quando mencionei que a própria Renner só citou eufemismos sobre trabalho escravo em seu próprio relatório de sustentabilidade. Ou seja, ela diz que se preocupa com a questão, ela não DEMONSTRA fazer nada.

Desculpe a força das frases, quis somente usar o mesmo peso do seu comentário, mas de forma alguma quis ser grosseira. (o:

Patrick de Lima disse...

Oi Juliana!

Entendo o seu ponto de vista e não discordo dele, realmente a pressão por preços baixos conduz muitas das diretrizes das empresas, o que falo é do controle. Ela tem iniciativas para controlar, e sei que o processo é complexo. A única saída para garantir uma produção totalmente correta, seria ter produção própria para ter o controle 24h dos processos. Mas não sei se a Renner, Zara, Coca-Cola, Nike, Apple (Foxconn), etc, existiriam, visto que todas tem produção externa.

O que questionei foi sobre o "fazer nada", pois sei que ela e tantas outras fazem muitas coisas e não só pelo controle de trabalho escravo, como também controle de descarte de resíduos, do uso de substâncias químicas restritivas em seus produtos, das normas de segurança, controle de trabalho infantil e menor, entre outros controles. Então, eles dizem e fazem, só isso que eu quis trazer de contraponto. Esse foi meu intuito com o comentário.

Agora, fazem TUDO que deveriam? Isso sei que não, pelos fatos que trouxe acima e que você bem reforçou. Então, de forma alguma estou defendendo que esse é o preço (terceirizar sem ter 100% de controle) que se paga para que as empresas existam, a vida nunca deve ser minimizada a preço de produto. Precisamos encontrar um meio de viabilizar esse sistema de terceirização, que é realidade nas maiores empresas do mundo.

Acredito que seu conhecimento seja muito maior que o meu para falar do assunto, pois concordo que não entendo muito de sustentabilidade, como você pode mencionar, mas estou buscando conhecer a cada dia mais e até por isto encontrei seu blog. Eu mesmo busco ideias e iniciativas que auxiliem no desenvolvimento das cadeias produtivas e estou inclusive escrevendo um artigo sobre destinação adequada de resíduos sólidos nestas cadeias.

Podemos conversar mais, caso seja do seu interesse, pois acredito em atitudes e vejo que aqui temos muitas atitudes positivas. Reforço que o Sustentapp, pelo vídeo de divulgação que vi, é uma iniciativa que pode ajudar neste sistema, assim que ele for lançado quero conhecê-lo melhor para divulgar o máximo que puder, pois acredito muito na ideia que vocês passaram.

Obrigado pelo retorno e desculpe se não me fiz entender no primeiro comentário, espero que eu possa ter me expressado melhor nesta segunda oportunidade.

Segue meu e-mail caso possamos conversar mais sobre a iniciativa do Sustentapp e outras que possam trabalhar convergindo para estes caminhos: patricklima3103@gmail.com

Um abraço,
Patrick