sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

O mito da economia circular


Não, o título desse post não é um clickbait. Meu objetivo com esse post não é o de polemizar, mas apenas de fazer uma análise crítica do que as pessoas abraçam cegamente e praticamente transformam em religião. Se quem trabalha com economia circular se sentir ofendido, terás o espaço totalmente disponível para justificar o que achar que deve, desde que, obviamente, de forma coerente, lógica e bem respeitosa.

Vamos lá. Economia circular está na moda e não há como negar isso. Está na moda dentro do meio da sustentabilidade, está na moda fora do meio da sustentabilidade. Virou a queridinha do mercado, virou a queridinha da indústria, virou a queridinha da imprensa e, medo, virou a queridinha de quem não entende nada de sustentabilidade. Mas, afinal, o que é economia circular?

Grosso modo, economia circular significa extrair, produzir, consumir, reciclar/ reutilizar/remanufaturar, produzir, consumir, reciclar/reutilizar/remanufaturar ∞. Ou seja, quando a vida útil de algum produto acabar, ele volta ao sistema produtivo seja por meio de remanufatura, reutilização ou reciclagem. É o tal do cradle to cradle. Ou, como conhecemos, do berço ao berço.

A economia circular vem a ser justamente o contrário do que é praticado na economia tradicional, que é a chamada economia linear. Ou cradle to grave (do berço ao túmulo), que significa extrair, produzir, consumir, descartar. Além de demandar muito mais matéria prima virgem, esse modelo de economia gera muito mais resíduo.

Caramba, Julianna, onde que isso é uma coisa ruim? Se a gente pensar que mais de 78 milhões de toneladas de resíduos são descartados todos os anos no Brasil e mais de 95% vão para lixões ou aterros sanitários gerar gás metano, aquele gás do capeta, que é 21 vezes pior que o CO2, a economia circular veio para resolver um baita problemão que o setor produtivo tem.

Sem contar, Julianna, que a gente está falando do fortalecimento do setor de reciclagem, da criação de um mercado de logística reversa... Só na União Europeia, por exemplo, estima-se que a economia circular possa injetar EU 550 bilhões na economia e gerar dois milhões de novos empregos (fonte: Ellen MacArthur).

Aí que vem a questão, meus caros. Não estou dizendo que a economia circular é ruim. Muito pelo contrário. Se pensarmos no modelo de economia e indústria que a gente vive hoje, ela é mais do que necessária, é fundamental. Mas vamos analisar mais bem criticamente: será que esse é o modelo de economia e indústria é viável no futuro?

A economia circular minimiza o problema de um modelo de consumo/produção que notadamente não é sustentável. Fato. Só que ela é, na verdade, a melhoria de processos de um modelo falido. Do ponto de vista da inovação, seria algo do tipo uma empresa lançar um modelo ultra mega maxi moderno de mp3 player hoje, num mundo que está cada vez mais ouvindo música por streaming.

Ou seja, a economia circular é a sustentabilidade do século XX. É a sustentabilidade do modelo industrial do passado. Celebrar a economia circular como a solução para a sustentabilidade do planeta é, simplesmente, avalizar uma lógica mental de um sistema econômico que é completamente ultrapassado. Economia circular é paliativo dentro de um modelo econômico que foca no crescimento eterno.

É claro que a economia circular é importante. É claro que ela é necessária. É claro que ela tem muito valor hoje e é claro que ela terá o seu papel em um modelo industrial do século XXI. A questão é que nem de longe ela tem o protagonismo que a modinha da sustentabilidade quer impor.

Tem um livro que eu amo, que se chama Muito Além da Economia Verde, do querido economista Ricardo Abramovay. Nele, o Abramovay fala justamente isso, de que não adianta a gente melhorar processos, ser mais eficientes, reduzir o consumo de recursos naturais por unidade de produção, se a gente está focado em crescimento e em produzir cada vez mais. Por unidade a gente consome menos, mas no final das contas o consumo é muito maior.

No livro, o Abramovay diz claramente: o mundo precisa de uma nova economia. E a gente está caminhando para isso. Talvez não no tempo necessário. Mas estamos em transição de uma sociedade industrial para uma sociedade do conhecimento. Não, a indústria não vai acabar, assim como ninguém deixou de comer porque saímos da sociedade agrícola lá em 1700 e bolinha. Acontece que a indústria vai se transformar. Inclusive, tem um vídeo que eu postei falando sobre o papel do engenheiro de produção no futuro, onde trato exatamente disso.

O fato é que o atual modelo de cadeias globais de produção tende a sumir. Vamos analisar aqui: do ponto de vista ambiental esse modelo é uma tragédia. Pensem na quantidade de gases de efeito estufa que é emitido trazendo um produto fabricado na China para ser vendido no resto do mundo. Pensem no chamado “racismo” ambiental que é relegar poluição e outros impactos ambientais às regiões mais pobres do planeta. Pensem nas questões sociais, como violações de direitos básicos, salários indignos e condições insalubres de trabalho.

Agora pensem numa outra questão que, talvez, seja a mais importante. De que adianta falarmos de economia circular, se o modelo econômico vigente é voltado para um consumo completamente irresponsável? Estamos falando, por exemplo, da produção anual de 80 bilhões de peças de roupas. Qual o sentido em falarmos de produção mais limpa, de design de ciclo fechado, de logística reversa, de reciclagem, se estamos falando da produção de 80 bilhões de peças de roupas por ano?

Qual o sentido de tratamos de reduzir o desperdício de produção, de trabalhar com cortes que gerem menos resíduos de tecidos, de priorizar o upcycling, de utilizar algodão orgânico e bla bla bla se estamos falando da produção de pelo menos 10 peças de roupa para cada ser humano habitante da Terra POR ANO?

Então, meus caros, quando eu digo que economia circular não é esse borogodó todo, não é para polemizar e muito menos diminuir quem trabalha, quem estuda ou quem é um entusiasta dessa área. É realmente uma análise crítica de que ela não é salvadora da pátria e muito menos solução para os problemas de sustentabilidade que o mundo vem enfrentando. Porque, na verdade, a solução para a sustentabilidade do planeta está, principalmente, na gente e no nosso modelo de consumo.

P.S. No dia 24/02, sábado, aqui no Rio de Janeiro, das 09h às 13h, estarei conduzindo um workshop sobre mapeamento e gestão de stakeholders. Até o dia 02/02 as inscrições podem ser feitas com desconto. Mais informações pelo email para contato@sustentai.com ou acessando o link: https://goo.gl/vsgmG2.






Julianna Antunes é consultora de sustentabilidade, palestrante, professora universitária e finalista de vários prêmios e concursos de sustentabilidade, tendo sido vencedora do Smart Living Challenge, cujo projeto foi apresentado na COP-21, em Paris. Faz mestrado em engenharia de produção na COPPE/UFRJ, com pesquisa voltada para inovação em modelos de negócio para o setor de petróleo e gás, e é criadora do Sustentaí, um projeto de democratização do conhecimento da sustentabilidade.

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