sexta-feira, 18 de maio de 2018

Por que as empresas dão tanto valor aos relatórios de sustentabilidade?

Confesso a todos que eu não sou lá muito fã de relatórios de sustentabilidade. Na verdade não sou nada fã. É claro que acho que deve haver uma prestação de contas pública a respeito das ações de sustentabilidade. Mas também acho que relatório é nada mais do que isso. Prestação de contas. Ponto.

Acontece que para muitas empresas, o relatório ganhou um protagonismo que, para mim, não faz o menor sentido. Em tese, repito, ele é apenas a prestação de contas daquilo que foi feito. DAQUILO. QUE. FOI. FEITO. Relatório não passa da ponta final de todo um processo de gestão de sustentabilidade cuja estrela tem de ser a execução no dia a dia daquilo que foi planejado. E aí eu pergunto: por que tanto cuidado com o final se o meio e o início são, simplesmente, relegados a um segundo plano?

Sinceramente acho que pouco deveria importar a metodologia de coleta de dados (sério, isso é simples demais para a montanha de dificuldade que as empresas dizem ter nessa etapa) ou em qual versão GRI o reporte é feito. Para não me chamarem de velha ranzinza que reclama de tudo, assumo que a definição de materialidade é bem estratégica para a empresa e, se bem feita, pode ter utilidade. O problema é que quase nunca utilizam essa ferramenta para outra coisa que não relatório de sustentabilidade.

Mas voltando ao modo ranzinza e adicionando uma pitada de sinceridade, a verdade e que relatório de sustentabilidade é um documento que pouca gente lê. Vamos lá, confessem, quantos relatórios de sustentabilidade vocês leram esse ano? Se não me engano, o último que li de cabo a rabo foi em 2014. Apenas porque eu tinha de transformar esse relatório específico em uma revista palatável ao público. Senão juro que não lia não. Mas pergunto: vocês leem, pelo menos, o relatório de sustentabilidade da empresa de vocês?

Outro ponto crítico é que a forma como os indicadores são relatados hoje não despertam nenhum interesse do mercado financeiro. No texto que escrevi sobre o tempo perdido da sustentabilidade, questionei gente da própria GRI sobre cobrar das empresas o impacto dos indicadores reportados no negócio. Lembram que ouvi como resposta que isso não era uma iniciativa de responsabilidade da GRI?

Conheço empresas/consultorias que cobram R$ 200.000,00 (e muitas vezes até mais) para escrever um relatório. DUZENTOS. MIL. ESCREVER. UM. RELATÓRIO. (Alô empresas, faço por bem menos e entrego muito mais rápido!) Conheço empresas que mal fazem sustentabilidade e um dia tiveram a pachorra de criar uma gerência de GRI. GERÊNCIA. DE. GRI. Com direito a analistas, estagiário e suporte de consultoria. Essa, definitivamente, é a história mais surreal de sustentabilidade que eu conheço.

Conheço universidade que criou linha de pesquisa de mestrado/doutorado para GRI. Imaginem uma pessoa sofrendo que nem um cão num mestrado, para, no final, escrever sobre a importância de relatar o que as empresas fingem que fazem para um mercado que finge que acredita no que finge que lê. Sério, já li dissertação sobre a importância dos relatórios de sustentabilidade para as empresas. Pelo menos a dissertação era mais divertida que os próprios relatórios.

Mas aí pergunto: para que tanto investimento financeiro, de esforço, de estratégia corporativa, de recursos humanos, para um mero relatório de sustentabilidade? Será que ele é mais importante do que colocar em prática e monitorar a sustentabilidade dentro de uma empresa? Não, não é!

O que acontece é que preocupadas basicamente com reputação e de olho no que seus pares fazem, as empresas investem na construção de relatórios que beiram a ficção. Sim, porque o que se tem hoje são relatórios que contam uma história onde acidentes não estão na boca de acontecer, onde conflitos sociais são problemas de fácil solução, onde o impacto de operações industriais na fauna e flora pode ser compensado com a simples construção de uma escola, onde as emissões de gases do efeito estufa são irrelevantes para as mudanças climáticas e, principalmente, onde as externalidades são apenas externalidades. Dos outros.

Pena que desde a imposição do modelo de relatório G4, a GRI sossegou o faixo das empresas em serem nível A+ sem a menor necessidade para isso. Para quem não sabe, o A+ significava que as empresas reportavam todos os indicadores e o relatório passava por auditoria externa. E que fique registrado: a maioria das empresas só era A+ para se mostrar ao mercado e fazer publicidade em cima disso.

E com um monte de livros de ficção (sim, relatórios com mais de 80 páginas em tamanho A4 são livros, convenhamos!) publicados anualmente, as empresas vão fingindo que fazem sustentabilidade. Mas não, elas não fazem. Muito longe disso. Inclusive empresas com relatórios impecáveis são verdadeiramente insustentáveis.

Ah, Julianna, mas os relatórios são auditados por terceiros. Como assim você os chama de obras de ficção? Queridos, eu já mostrei em curso como as empresas manipulam uma auditoria externa de relatório de sustentabilidade de forma que os indicadores críticos não joguem a sua reputação no ralo. É a coisa mais fácil e, até, simplória de se fazer, se é o que querem saber.

Mas enfim, recado dado, queria muito que as empresas olhassem mais para as etapas iniciais da sustentabilidade que são as mais importantes. Entra ano, sai ano, a gente sempre continua nessa enrolação me engana que eu gosto. Acontece que estamos na transição da era industrial para a era do conhecimento e a sustentabilidade corporativa, assim como todo modelo mental das pessoas vai mudar. Novas formas de consumo, de produção, de uso das coisas.

Só que a verdade é que na beira de 2020, a gente ainda capenga na sustentabilidade que era para ser do século passado. Como já disse nesse mesmo texto sobre a década perdida da sustentabilidade, a gente não só não fez o que tinha de fazer, como regredimos.

Mas como não costumo desistir no meio do caminho e muito menos me entregar ao que é mais fácil, proponho: que tal pararmos de pensar um pouquinho em relatórios, em projetinhos sociais de escolinha de futebol e coisas do tipo e começarmos a praticar sustentabilidade corporativa de gente grande?

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